segunda-feira, 29 de abril de 2013

Com você eu consigo voar. - Cap. 9

Eu já não sabia que dia era, só consigo saber o dia do mês e o da semana no início do ano, depois só lembro vagamente dos horários e olhe lá. Tava chovendo bem forte do lado de fora da escola, o Felipe disse que hoje eram dois horários seguidos de história e que nós iríamos pro auditório ver filme com a professora Janne, uma baixinha fofinha que fazia a sociedade grega ser menos chata. Nós fomos pra uma sala enorme, com um ar condicionado pronto pra me matar congelada e com um puta telão pra assistir Tróia. To tão animada que vou até dormir os dois horários, só pra não perder a fama. Acho que tinha umas trinta turmas de ensino médio lá, uma bosta, todas as panelinhas se formaram e sobraram três lugares. Claro que a Maria Alice tinha que ficar sentada entre o Justin e Felipe, por que ela foi a menina que descarregou um caminhão de pedras na cruz.
- Você se importa que eu sente aqui? Por que se for pra tu ficar com essa cara de cu eu sente no chão. – Suave como um ralador de queijo, Justin e seu jeito babaca que te faz ceder sem que você perceba.
- Eu nem vi que você tava ai e obrigada pela "cara de cu", mas, infelizmente não era por você… Não sou muito fã de ar condicionado mesmo.
- Ah, de qualquer forma, não quero incomodar.
- Você não incomoda e nem desincomoda, tanto faz, só faz silêncio pra eu dormir.
- Desincomoda?
- Daí você diz silêncio e o seu coleguinha ouve "puxa assunto comigo", tchau.
- Ma, má.
- Cheguei!
- Oi Fedredor
- Eu não perdi, e detestei esse apelido.
- Problema seu né, agora me da esse casaco e me empresta seu ombro. –  Encostei a cabeça no obro dele, tentei encolher minhas pernas ao máximo pra não encostar no encosto que tava na ponta do banco, mas, ele foi um tanto quanto convidativo. Jogou algum pano, que eu suspeito ser um casaco, muito fofinho sobre a minha perna, e eu ia olhar, ou tirar de mim, mas, foi inevitável não me sentir bem. Frio com cobertinhas é tipo sábado de manhã, não consigo resistir. Acordei em umas três partes do filme, porém, ficar deitada tava mais interessante. Tentei escutar o que o Felipe e o Justin estavam cochichando, mas, não consegui. Eu ia perguntar depois o que era, mas, fiquei com medo de ter sido sonho, pois é, o sono tava pesado mesmo. Quando o filme acabou eles ligaram a luz e eu me senti um vampiro exposto ao sol, não, eu não brilhei, ardeu mesmo. Fui pra sala em seguida, era aula de educação física, que sonho. Sentei na arquibancada e fiquei procurando um motivo pra ter um bando de homens correndo atrás de um bola e umas meninas por perto fazendo cara de comercial de cerveja, de qualquer jeito, ignorei. Fiquei ouvindo música, contando quantas bolinhas tinham na quadra, pensando na morte da bezerra, sei lá, qualquer coisa até que aula acabasse. Pra minha sorte, acabou, porém, ainda tinham mais umas. Eu e o Fe discutimos uns assuntos super importantes, tipo o crescimento do meu cabelo e a barba dele. Na hora da saída ele disse que precisava resolver umas coisas e que me encontrava de noite, ótimo, fui andando sozinha no maior temporal.
- Ma, você vai pra casa andando nessa chuva?
- Não, vou esperar a próxima.
- Porra guria, to tentando ser educado.
- Desculpa, eu nem consigo tentar essas coisas. – Ri um riso filho da puta, ele sabia que eu era assim, não entendi a sensibilidade.
- Ridícula. – Ele riu.
- Aham, ta, to indo viu? Tchau. – Fui andando até que um mal comido passou com a carro e me deu um banho, eu ficaria tranquila se fosse qualquer mal comido, mas, era o babaca do Justin
- EU VOU MATAR VOCÊ!
- Só se for de amor né.
- Filho da puta! Sai daqui.
- Entra logo nesse carro, você ta ensopada e agora ta suja, você vai pegar uma pneumonia.
- Azar o meu né. – Então ele desceu do carro e veio andando na minha direção.
- O que tu ta fazendo?
- Se você quer ficar doente, também vou ficar, até sua birra passar.
- Burro, tu vai deixar o carro parado no meio da rua nessa chuva?
- Não, vou esperar a próxima também pra deixar.
- RA RA RA, por que você não coloca uma melancia na cabeça e fala que é a Carmen Miranda?  Vai ser bem mais engraçado do que essas piadinhas.
- Ma, pela milésima vez, acho que a gente começou errado.
- Exatamente! É por que a gente não devia ter começado. Você me deixa na defensiva, e desconfortável, para com essa mania de ficar me seguindo.
- Justin. –Ele estendeu a mão num ato insistente de se reapresentar, e fez cara feia e dura, tipo de criança fingindo que é do mal.
- Maria Alice, e você não pode mais me chamar de Ma, por que Ma é pros íntimos e não quero intimidade com você.
- Posso te levar em casa? Ou você prefere que nós dois fiquemos doentes e que um carro bata no meu e cause um acidente só por que você é orgulhosa?
- Chantagista. Espero que você saiba que é só pelo acidente, por que você ficar doente é puro merecimento.
- Como você quiser Maria Alice.
- Ta, pode chamar de Ma, o nome Maria parece uma briga.
- Então você desistiu de brigar?
- É só uma trégua por que você é um babaca que estaciona o carro no meio da rua e eu não quero sentir remorso. – Fui em direção ao carro, ele tentou abrir a porta pra mim, mas, aquilo não precisava ser mais ridículo do que já era, o empurrei e abri o carro sozinha. Liguei o som e eu bem que queria mudar a rádio, mas, ele tava ouvindo missy higgins, e fazia séculos que eu não escutava aquela música. Where I stood, boa. Comecei a cantar baixinho e ele ficou batendo o dedo no volante no ritmo da música, então eu tive que perguntar.
- Você gosta desse tipo de música?
- Não, é, que, é, ah, você sabe, a voz não é tão ruim, e a melodia também não, mas, esse cd nem é meu, é, pois é. – Ta, o cd era dele e ele gostava, eu ri pra ele perceber que eu tava rindo e ele ficou sem graça… Seria bonitinho, mas, vindo dele, era ridículo.
- Chegamos. – Ele me olhou com uma cara suave.
- Vai querer me levar na porta também?
- Eu não, ta frio pra caralho e o céu ta caindo, tenho certeza que você pode nadar até a porta, qualquer coisa se prende na nossa, quer dizer, sua árvore e espera seu namorado chegar.
- Essa árvore é só minha.
- A provocação era em relação ao namorado… Contigo é tudo ao contrário mesmo né?
- Todo mundo sabe que ele não é meu namorado, se você quer chamar ele assim, foda-se, quando tu pagar minhas contas a gente conversa sobre a minha prestação de detalhes da vida pessoal.
- Ui, sem ficar bravinha.
- Obrigada pela carona ok? Minha árvore, sem namorados e para de me olhar com essa cara.
- Que cara?
- A cara de “você fica linda brigando”
- Mas você fica horrível, enfim, tchau Ma. – Ele riu como se tivesse graça, babaca, o pior é que tinha. Sai do carro e bati a porta o mais forte que eu pude, foi um bom troco.
- PORRA, TU NÃO TEM GELADEIRA EM CASA NÃO? – Ele gritou pelo vidro da janela. Mandei um beijo e ele me deu dedo, o dia já tinha valido só por eu ter visto aquela cara de “vou te matar” dele. Entrei, me torci na varanda, andei pela sala e fui tirando a roupa, subi correndo pro quarto e tomei um banho bem quentinho, nada melhor do que não fazer nada, exceto quando sua cabeça quer pensar e pensar. 


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