Acordei com uma mensagem do Felipe, só de ver o nome dele numa mensagem já parecia que estava tudo bem, até eu ler a mensagem. “Tu vai pra escola comigo ou com seu novo amigo?” Eu queria mandar ele ir tomar no cu, mas, eu tava tentando melhorar essa parte de ser grossa, eu tinha prometido pra mim mesma que ia mudar. Respondi “com você Fe, para de besteira, poxa.” Ai quando eu acho que não da pra ficar pior, eu entro naquele período do mês no qual ou eu mato ou eu morro, que ótimo, adoro TPM mesmo. Tomei um banho, vesti aquele uniforme horroroso, me atrasei um pouco, quando olhei pela janela o carro do Justin tava passando a dois por hora na frente da minha casa, juro que dava pra ver até ele olhando pra minha janela, mas, decidi que era coisa da minha cabeça. Desci as escadas e me preparei pra batalha, por que se eu odiava segundas feiras, agora eu ia ter mesmo um motivo pra isso.
- Bom dia Maria Alice.
- Bom dia filha.
- Bom dia mãe. – O Fe ia me chamar de Maria Alice? Ótimo, ele não iria ouvir minha voz. Comi rápido, peguei minha mochila e sai. Bati a porta o mais forte que eu consegui, só pude ouvir minha mãe rindo e falando “você devia ter chamado ela de boa”, claro que ele devia ter me chamado disso, só se fosse pra que quebrar minha mão na cara dele. Eu já tava mal humorada, que sorte a minha e a de qualquer pessoa que me dirigisse a palavra. Eu nunca choro, mas, tem cinco dias do mês que me tiram do sério, exatamente o tempo que dura a bipolaridade da minha TPM.
- Maria Alice, teu cadarço ta desamarrado.
- Sério? Por que você não vai se foder ao invés de ficar olhando pro meu pé? – Ele não tinha direito de ficar bravo comigo só por que eu era amiga de alguém que ele não ia com a cara, nós não tínhamos nada, e Maria Alice era proibido, ele sabia disso.
- Eita porra, que que eu fiz?
- Fica me chamando de Maria Alice, tu sabe que eu não gosto, sabe que… – Comecei a chorar, caralho, eu odeio chorar. Nada me irrita mais do que chorar, e o Felipe ficou tão desesperado que começou a pedir desculpas, me abraçou, amarrou meu cadarço, falou que era ciúmes de amigo, que já ia passar, ficou amarelo, nervoso, tremendo, e eu comecei a rir.
- PORRA CARA, UMA HORA TU CHORA, DEPOIS FICA RINDO, TA QUERENDO ME DEIXAR LOUCO?
- Eu to, to, aliás, essa TPM ta em mim, essa semana vai ser difícil, só pra avisar.
- Mas, pelo amor de Deus, não faz mais isso.
- Isso o que?
- De ficar com o olho grande e morder a boca, depois prender o ar e quando tu não consegue mais, chorar. Só, só não chora mais.
- Eu não tava chorando, é que caiu alguma coisa no meu olho.
- Claro Ma, claro. – A gente chegou na escola mais rápido do que eu queria que a gente chegasse, e assim que eu entrei na sala, o Justin tava lá, agarrado com o poste dele que agora eu sei o nome. Selena. Eu não entendo esse garoto. Um dia quer ser meu amigo, depois me beija, depois somos amigos de novo, depois ele fica bravo comigo por causa do Fe, depois ta de novo com o poste. E eu que sou complicada? Faça-me um favor né.
- Fe, me faz um favor?
- O que?
- Vai na enfermaria e pergunta se tem algum remédio pra cólica.
- Ai Ma, isso é frescura, fala sério.
- Sentir dor quando tu leva um soco no saco também.
- Tu é sempre bem humorada assim?
- Sempre! – Sorri com uma carinha doce de menina meiga.
- Já volto. – ele foi correndo na direção da enfermaria enquanto eu procurava um lugar pra sentar. Como eu sou sortuda, tinha uma cadeira do lado do Justin e outra do lado da mesa do professor. Por um momento considerei sentar perto do professor, mas, eu precisava dormir pra minha dor passar, e ele, com certeza, não iria facilitar. Quando o Fe chegou a turma toda ainda tava de pé, daí ele me deu o remédio e nem percebeu quem ia sentar do meu lado, só falou que ia sentar na frente nessa primeira aula e depois vinha para trás. Assenti com a cabeça. O professor chegou e todo mundo sentou, pro meu azar.
- Não vai sentar perto do seu namorado? – Ignorei – To falando com você Ma.
- Tu sabe que eu não tenho namorado, então, no mínimo, não ta falando comigo.
- Vocês estavam tão íntimos ontem, quando eu passei na frente da sua casa, ele tava até comendo lá.
- Pois é, ele é meu amigo, e até onde eu sei, amigos vão uns nas casas dos outros.
- Vocês querem vir aqui dar aula?
- Na verdade, professor, eu quero que tu saia da minha frente pra eu copiar a explicação, que que tu acha?
- Maria Alice, sai da sala. – FILHO DE UMA PUTA, POR QUE ELE NÃO SAIA DA SALA? NINGUÉM QUERIA ELE ALI. Saí. O Felipe me olhou com uma cara de “por que você fez isso?”, e assim que eu atravessei a porta vi um vulto vindo atrás de mim, e quando olhei, era o Justin.
- Que que tu ta fazendo aqui?
- A gente precisa conversar.
- Sai Justin, eu não quero falar nada com você.
- Mas, Ma, a gente é amigo, e amigos conversam, certo?
- Agora a gente é amigo? Por que ontem quando tu foi embora não pareceu tão meu amigo.
- Eu só tava com, é, com, com calor.
- Calor? – Ri até perder o ar, fala sério, ele já tinha sido melhor em mentir.
- É, calor, ai precisei dar uma volta. Depois encontrei a Selena e meu domingo terminou como todos os outros.
- Que bom pra você né?
- Na verdade, foi mesmo. – Calei, eu não perguntei nada, não queria saber. E não era ciúmes, por que eu não sinto isso, mas, não gostava dessa menina.
- Hm. – Eu tava muito sensível, meu Deus, meu olho tava ardendo por que eu sabia que se eu piscasse minha vontade de não chorar iria por água abaixo. Só que alguém contou isso pro Justin também, ele levantou meu rosto que tava direcionado pro chão e me abraçou. Depois ele ficou olhando pros meus olhos e riu.
- Seu olho fica quase verde quando você chora.
- Eu não to chorando, é alergia a você, me solta. – ri.
- Não. – E ele gargalhou, e depois me abraçou mais forte, e no meio de tanta risada a gente se olhou, e eu esqueci que tava na escola, parecia aquela montanha, e meu sorriso sumiu, assim como o dele, e ele chegou bem pertinho de mim, e eu senti nossos lábios se tocarem, só que, nessa hora, ouvi aplausos também. O empurrei na hora, abri os olhos e o intervalo de cinco minutos a cada duas aulas tinha acabado de começar. Vi mil rostos ali, mas, só um me deixou aflita; o do Felipe. Ele me olhou, fez uma cara de nojo e saiu andando. Depois ele voltou, veio andando na minha direção como se fosse me atropelar, e disse a única coisa no mundo que eu não esperava ouvir.
- Agora que você já ganhou sua aposta, pode ficar longe da Ma. Ela não é que nem a Selena ou o resto das gurias dessa escola. – E ele fez a única coisa que eu tinha imaginado, e depois do que ele disse, a única coisa que eu queria que ele fizesse, deu um soco na cara do Justin. Ele tentou revidar, foi com tudo pra cima do Felipe, mas, eu entrei na frente e ele parou.
- Aposta?
- Então quer dizer que você não sabia que era uma aposta Maria Alice? Você achou mesmo que o Justin olharia pra você? E mais do que isso, que ele te beijaria? – Era a Selena falando comigo? Fiquei na dúvida por que só vi uma cachorra latindo do meu lado.
- Ma, não é isso. – Disse o Justin procurando uma desculpa no meio do ar.
- Fala a verdade pra ela amor, que você só se aproximou por que ela tava bonitinha na sua festa, e os meninos duvidaram de que ela cairia na sua. – Latiu de novo o poste da escola.
- Cala a boca Selena. – Finalmente eu precisei concordar com o Justin. - É verdade?
- Ma, é que…
- É VERDADE?
- No começo era, mas, ai…
- Você tem exatamente tudo que você merece. – Ri seco e saí. Eu queria chorar, me descabelar, comer quilos e quilos de sorvete, me afogar em copos de qualquer bebida forte, dormir abraçada com ursinhos, comprar todos os chocolates do mundo e me deprimir assistindo “um amor pra recordar”, mas, não. Eu não sou assim. Eu assisti todas as outras aulas do lado do Fe, pedi desculpas pra ele, disse que ele tava certo, fizemos alguns deveres, até rimos de algumas besteiras. Fomos pra casa como sempre, e eu só ignorei, por que quando a gente esquece, não tem por que chorar, certo? O outro lado da minha tripolaridade tinha chegado, a glaciosidade. Eu costumo a ser fria como uma geleira, e não há nada que me faça derreter, só verdades, então, como o assunto era o Justin, eu ficaria gelada pra sempre. Cheguei em casa, tomei um banho, liguei pro Felipe, ele ficou lá comigo até eu dormir, minha mãe tava no trabalho, de noite ele me acordou pra gente comer, eu fiz um jantar fácil e me despedi. Sentei na minha cama, desisti de pensar nas coisas e fui escrever. Saiu uma música, fui tocar no telhado. Desliguei o celular por que o Justin não parava de ligar, sentei bem do lado da minha janela e comecei a dedilhar. A música falava sobre como as pessoas são egoístas, sei lá, sobre como elas não pensam nas consequências, mas, eu não tava ligando muito pra nada, só queria cantar pra fazer o tempo passar.
- Bonita música.
- Vai embora.
- Ma, você precisa me ouvir.
- Na verdade eu preciso dormir, com licença. – Entrei, o Justin não tinha bom senso, ir na minha casa foi a pior prova disso. Deitei e dormi, que nem uma pedra. Acordei mais cedo que o normal, me arrumei e liguei pro Pedro. Ele veio pra minha casa antes mesmo de 6 horas, então a gente pôde conversar.
- Eu te disse que você ainda ia quebrar a cara com ele Ma.
- Eu sei, mas, eu precisava ver acontecer.
- Eu sinto muito.
- Eu não, na verdade, não sinto nada.
- Já sei o que nós vamos fazer no final de semana pra você se sentir melhor!
- Eu to bem. – ele discordou com a cabeça.
- Vamos num lugar aonde você vai poder sair do chão e se desligar de todos os problemas.
- Você vai me levar pro céu?
- Quase isso.