O Justin foi pra casa dele e eu pro banheiro da minha mãe, por que lá tinha uma banheira e eu precisava relaxar o suficiente pra não ter um colapso nervoso. O Justin não me deixa nervosa, mas, o melhor jeito de não se ferrar é ter tudo sobre controle, e ele é tão imprevisível que a única coisa que me diz é o que vestir… Que tipo de menino te deixa aflita desse jeito? E nessa hora o meu subconsciente grita: “PORRA MARIA ALICE, A GENTE COMBINOU QUE TU NÃO IA GOSTAR DELE, QUER ME FODER ME BEIJA”. Mas, eu não gosto dele, quem disse que eu gosto? To determinada, só vamos ser amigos, amigos também saem à noite. Coloquei aquelas coisas cheirosinhas na banheira, esperei ela ficar bem cheia e com espumas e entrei, juro que quase liguei pro Justin desmarcando nossa saída, por que, na boa, aquele era o melhor lugar do mundo. Depois de quase uma hora criando coragem pra sair do banho, me enrolei num roupão, prendi uma toalha no meu cabelo e fui decidir o que vestir. Coloquei um vestido bege que era um pouco rodado na saia, acrescentei um cinto de ferro dourado, uma sapatilha no estilo do vestido, um casaquinho, peguei uma bolsa de mão, fiz uma maquiagem bem rápida por que eu não tenho saco pra essas coisinhas e, tcharan, eu tava pronta. Minha mãe ainda não tinha chegado, deixei um bilhete na geladeira avisando que tinha saído com o Justin e que qualquer coisa ela podia me ligar. Assim que eu acabei o bilhete a campainha tocou, era ele, e foi bonitinho olhar pelo olho mágico e o ver treinando um sorriso.
- To interrompendo alguma coisa?
- É, oi Ma. Achei que tu fosse demorar um pouco pra abrir a porta, mas, isso não vem ao caso. Você ta bonitinha.
- Bonitinha? 110%, isso não é coisa que se fale.
- Você ta linda! – Ele riu, mas, sem querer me gabar, tinha sinceridade na voz dele.
- Aonde vamos?
- Surpresa, eu já disse. – Entramos no carro, ele tava ouvindo Oasis, deixei, era uma boa música. Ele dirigiu até o centro da cidade e parou numa praça em frente a um hospital, não entendi.
- Aqui foi onde eu nasci, e algum tempo depois, onde minha mãe morreu. Aquele restaurante ali, virando a esquina, foi o primeiro lugar que eu me lembro de ter jantado com ela. Foi num aniversário, e ela tava bem feliz. E aquela galeria de frente pro restaurante, é dela, mas, ta fechada a uns anos, e lá dentro tem os quadros favoritos dela, e um deles nós dois pintamos juntos, por isso não gosto de desenhar. E nessa praça, meu pai pediu minha mãe em casamento, assim que ela saiu do hospital e descobriu que tava grávida de mim. Pronta para o próximo lugar? – Queria fazer um comentário de tudo aquilo que eu tinha acabado de ver e ouvir, mas, guardei, ainda tinham dois lugares.
- Pronta. – Entramos no carro e fomos até uma casinha, simples, mas, linda. Era pequena, com um quintal imenso e uma árvore gigante, que tinha aquelas casinhas de criança.
- Eu morava aqui. Quando meus pais se casaram eles não tinham muito dinheiro, os pais da minha mãe não gostavam muito do meu pai, então, os dois venderam tudo que tinham e compraram esse espaço, com muita vontade eles construíram essa casa, eles mesmo. E, essa árvore, é a árvore da qual eu te falei. Com o passar do tempo meu pai começou a trabalhar e hoje em dia ele é o dono da empresa que ele trabalhava de motorista, o que o deixa totalmente sem tempo pra nada, inclusive família. Essa é a história de onde eu cresci, e, agora vou te levar no meu lugar favorito, que é aonde eu mais vou agora que já sou grande. – Ele falou rindo e ironicamente.
- Você não é grande. – Brinquei.
- Você não pode dizer isso ainda. – sarcasmo e humor negro, suas especialidades.
- Ah, com certeza eu posso.
- Então acho que já posso te surpreender. – Ele gargalhou.
- Ou pode tentar né.
- Próximo e último lugar? – Assenti com a cabeça e fui em direção ao carro. Nós estávamos meio que voltando pra casa, se eu não me engano era o mesmo caminho que fizemos na ida. Paramos em frente aquele bar, pub ou sei lá o que aquilo era. Tava vazio, devia ter umas oito pessoas, mas, era o melhor ambiente em que eu já havia ido.
- Que lugar mais aconchegante, sério, parece que eu to no meu quarto.
- Mas esse já é o MEU lugar favorito.
- Se eu posso dividir minha mãe, você pode dividir seu lugar, certo?
- Você ainda vai ter que me convencer 100% de que merece ele. – Ele riu por uns minutos e então escolheu uma mesa pra gente sentar.
- Então agora o jogo ta virando?
- Digamos que eu esteja por cima.
- Você sabe que não vai durar muito tempo então, né? – rimos.
- Você bebe?
- Não.
- Oi, dois sucos de laranja.
- Vai cantar hoje? – O garçom perguntou, e ele olhou com uma cara de desespero tipo “finge-que-não-foi-comigo-e-vaza-cara”
- Não, só os sucos mesmo.
- E desde quando você não quer whisky?
- Com gelo e açúcar ta? – Ele olhou com uma cara de quem ia fazer o cara engolir uma cadeira se ele não parasse de falar e saísse dali.
- Você canta?
- Esse cara é louco, sério, nem conheço ele. – Então a gente riu, conversou, e, pelo menos uma vez na vida, não brigamos.
- Os dois sucos.
- Valeu Dudu.
- Então você não conhece ele? – perguntei do jeito mais irônico e engraçado.
- Ta bom esse suco né? – a gente, riu, tudo bem, ele não queria falar daquilo.
- Ta maravilhoso, obrigada.
- Pelo que? É só um suco.
- Não, por isso, sabe? Você ta sendo legal comigo, me falando coisas que eu sei que não são fáceis pra ti, tentando me convencer de que você não é algo que eu julgo ser, perdendo seus dias entrando nas minhas confusões, aguentando minhas grosserias… Obrigada.
- Se isso foi uma bandeira branca, ok, minha vez. Obrigada também, por me deixar conhecer uma Maria Alice que pode suportar um Justin, vou tentar não te traumatizar.
- Amigos. – Estendi a mão.
- Amigos. – Ele a apertou.
- Só não me decepciona ta?
- Só não me decepciona você, ta?
- Combinado. – apertamos as mãos de novo.
Foi uma noite cheia, mas, reveladora. Eu me surpreendi, não comentei, mas, foi a melhor surpresa que eu podia ter. Nos fundos do bar tinha um jogo de dardos, e nós competimos a noite toda, por que sem uma rixa entre Ma e Justin eles não existem né? Sem intenção olhei no relógio e CARALHO SÃO DUAS HORAS DA MANHÃ!
- Justin, são duas horas, acho melhor a gente ir.
- Sua mãe ligou?
- Não, e ela não fez isso por que sabe que eu to com você, e minha mãe é uma tramadora de planinhos. – ri.
- E ta dando certo?
- O que?
- O plano dela? – Fiquei vermelha, senti minha cara pegando fogo, eu tentei falar, umas cinco vezes, mas, minha voz tava perdida em algum lugar da minha garganta, então abaixei a cabeça meio que rindo e sem saber o que fazer. Ele me puxou pela mão, me levou até o lado de fora, e do lado do bar tinha tipo um laguinho com uma ponte, ele me levou até lá, sem dizer nenhuma palavra. A gente observou as estrelas por um minuto, ele não soltou minha mão, e lá fora tava frio pra caramba, o que me fez estremecer. Ele tava sem casaco, então, me abraçou. Não recuei, o cheiro dele me prendeu. Ele segurou meu queixo e me deu um beijo. Eu queria bater, empurrar, jogar ele daquela ponte, mas, por impulso, segurei o rosto dele e não consegui o mover dali. Ele riu, o que me fez rir também, então ele beijou minha bochecha e, sem me soltar, olhou pro céu.
- Ta vendo aquela estrela? A que mais brilha?
- Tô.
- É a minha mãe, e eu aposto que você também acha que é o seu avô, então, posso garantir que são os dois juntos, olhando pra gente.
- Dessa vez preciso concordar, você ta completamente certo. – Aleluia eu tinha conseguido falar alguma coisa.
- Ma, eu não quero que isso atrapalhe nossa amizade ta? Se tu tiver ficado brava, desculpa.
- Foi só um beijo, calma, só paixão estraga amizades, e você ia ter que passar o resto da sua vida me beijando pra eu, talvez um dia, me apaixonar. – Rimos e nos empurramos, mas, depois voltamos a mesma posição.
- É bom ter você por perto.
- Não é tão ruim te ter também, até por que ta frio pra caralho.
- Vou aceitar como um elogio.
- E aproveita, por que eu não faço muitos. – Rimos mais, implicamos um com o outro, contamos coisas um pro outro, falamos sobre passado, presente e futuro. Combinamos de que aquela noite tinha sido incrível e que um beijo não estragaria uma semana, até fizemos piadas, e isso tirou um peso enorme das minhas costas. Ele me levou em casa, me deixou na porta, me deu um beijo na testa, então alguns segundos depois minha mãe abriu a porta, deu um oi pra ele e ele sussurrou no meu ouvido “conta pra ela que o plano funcionou” e eu dei um soco no braço dele, ele foi embora rindo, e eu preciso confessar, fui dormir do mesmo jeito.

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