- Que é?
- Desculpa, é só que, eu sinto falta dela sabe? E acho que eu nunca tive um “luto”, não sei reagir, falar, lembrar, não é que nem perder um colega, ela era minha mãe.
- Eu sei como dói perder alguém, mas, tenho certeza que ninguém que vai embora tem a intenção de levar sua vontade de fazer as coisas com ela, inclusive e principalmente sua mãe. Fala dela, chora, briga, fica puto, é assim que passa. – Ele me olhou de um jeito que nunca tinha olhado, bem nos meus olhos, como se fosse me dar um tiro com eles. Observei cada passo, ele voltou pra arvore, colocou as duas mãos nela, e começou a gritar. Ele gritou, gritou muito alto, e a única coisa que eu ouvi foi um “eu sinto sua falta, juro que sinto, e desculpa ter mudado tanto”. E me doeu, bem no fundo doeu, e eu não queria estar ali, por que superar, às vezes, é muito pior do que perder.
- Pronto, é assim que as coisas são, eu grito, converso com uma árvore a anos, e sabe o pior? Nada muda.
- Quando meu avô morreu eu também pensei assim, mas, muda sabe? Por que eu sei que, não importa onde ele esteja, ele me quer bem. Eu preciso seguir sabe? Hoje eu falo dele sorrindo, e é assim que as coisas tem que ser.
- Eu sou forte com bebida, brigas, palavras, mas, chuva me derrota, é só por isso que eu to assim.
- Sei.
- É sério. – Segurei a mão dele o mais forte que eu consegui, fechei os olhos e pedi pra Deus, pedi muito pra que ele parasse de me olhar com aquela cara de quem chora, mas, que não vai chorar por que é machão demais pra isso. Tudo, menos aquela cara.
- Acho que eu vou ficar com pneumonia. – Então ele me puxou pela mão e a gente começou a correr, nossos cachorros ficaram brincando e correndo com a gente, foi engraçado até quando eu tropecei na coleira de alguém e cai.
- AI CARALHO, MEU JOELHO!
- Ta saindo sangue Ma, puta que pariu, que que eu faço?
- Dar beijinho pra sarar que não vai ser né, me ajuda. – Ele me ajudou a levantar e fui cambaleando até a casa dele. Ele abriu a porta, que não estava trancada por sinal, não tinha ninguém, então eu entrei. Ele subiu as escadas, que eram imensas, correndo e pegou uma caixinha de emergência. Tinha mil coisas que não são emergenciais, porém, ele conseguiu fazer um curativo. Depois me deu uma toalha e uma roupa dele.
- Pra que isso?
- Não quero ninguém com pneumonia.
- Que delicado você!
- Vai se foder, se seca logo que eu vou te levar em casa e falar pra sua mãe que tem um pedaço do seu joelho na rua.
- Que exagero, foi só um cortezinho mínimo. – Ri por que meu joelho tava sangrando pra caralho, e fui pro banheiro da sala tentando não sujar o chão. A porta não tinha chave, que ótimo, parece que nada lá fica trancado. Tirei a roupa, enrolei a toalha no cabelo e me vesti com uma bermuda e uma blusa branca que era gigante. Fiquei parecendo aquelas mulheres de malandro, e já fui pensando em como explicar pra minha mãe por que eu tava vestida com a roupa dele.
- Ficou linda viu!
- Sai, você não faz meu tipo. – A gente riu. Ele me levou até em casa e ficou falando pra minha mãe, que não sei por qual motivo estava lá, o quanto eu sou desastrada. Eles se deram bem ou eu tava ficando louca?
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