Eu olhei, esfreguei os olhos, pisquei, mas, era mesmo verdade.
- Posso interromper as garotinhas?
- Qual é Ma, to adorando conhecer sua mãe, quer dizer, nossa, por que eu já me ofereci pra ela me adotar. – Ele riu um riso tão sarcástico que, por um minuto, olhei com muito apreço pro jogo de facões da minha mãe e pensei no desenho lindo que eu podia esculpir na cara desse oferecido.
- Vaza garoto, minha mãe, minha casa, e por falar em propriedades, tu ta sentado na minha cadeira.
- Boa, isso são modos de tratar o menino? Rapaz bonito, gentil…
- Então quer dizer que seu apelido é Boa? – O Justin tava pedindo pra gente fazer um número mágico imitando aqueles caras que engolem espadas.
- É que eu acho Ma muito feio sabe Justin? Atrai coisas ruins, ai prefiro chamar minha princesa de Boa.
- Ah, princesa, sempre soube que você tinha algo bom, mesmo que fosse o apelido. – Aquele olharzinho, ia ter troco, isso ele podia apostar.
- Então, eu vou lá pra fora, tchau.
- Calma filha, eu fiz lanche!
- Da pro seu novo melhor amigo ai, quer dizer, filho né.
- Boa, não fala assim. Pode ir lá pro jardim que eu levo. – Minha mãe sendo gentil, o Justin deve ter usado alguma tática de hipnose, por que não tem explicação. Sentei na grama e fiquei assoprando uns dentes de leão que estavam por perto, eles me davam aquela esperança boba de fazer um pedido. No primeiro dia que encontrei essas florzinhas diferentes eu pedi minha vida de volta, mas, agora, eu só queria que aquela mudança valesse a pena. Então, no meu maior momento de reflexão, surge uma bola na minha cabeça.
- QUE PORRA É ESSA?
- Desculpa Boa, é que eu sou muito bom de bola. – Ele riu até perder o fôlego, o que não era muito difícil.
- Você gosta de rir Justin?
- Gosto, por quê?
- Por que se você não parar de ser tão engraçado vou ser obrigada a arrancar todos os seus dentes, e creio eu que rir sem dentes não fica muito bonito.
- Cala a boca! Eu sou lindo de qualquer jeito.
- Claro que é, ai você acorda e percebe que não.
- Calma Boa, não precisa ficar com ciúmes da nossa mãe, você ainda é a princesinha da casa HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- Ou, deixa eu dar um chute na sua cara? Só pra fazer um teste? Se dor você me avisa que eu prometo que não chuto de novo! Me chama de boa mais vez que eu…
- Boa! – Fui tentar dar um empurrão nele, mas, nós dois caímos por que meu nome é Maria Alice desastre, não podia ser diferente. Confesso que quem viu a cena de fora deve ter visto duas crianças se atracando pra decidir que ganhou no videogame, mas, não era bem isso que tava acontecendo. Ele me prendeu com força contra a grama, isso pra não falar contra ele. Prendeu minhas pernas com as pernas dele e segurou meus braços de um jeito que me senti um gatinho lutando com um leão, babaca.
- Me solta.
- Admite que sou um ótimo amigo, se não eu não solto.
- Você não é meu amigo. – Então ele chegou muito perto do meu rosto, eu conseguia sentir o coração dele batendo e a respiração dele me fazia cócegas.
- Admite. – entrei no jogo dele, cheguei mais perto, ao ponto de praticamente não haver distância entre os nossos rostos, então ele afrouxou minha mão, bem coisa de perdedor. Coloquei ele entre mim e a grama, ninguém me vencia numa lutinha.
- Você nunca ia ganhar de mim. – Dei um soco de leve no queixo dele – Você ainda tem muito o que aprender, garotinho.
- Eu te deixei ganhar.
- Eu finjo que acredito.
- RÃRÃÃÃÃÃÃÃÃÃM
- Oi, é, mãe.
- E os modos minha filha? E os modos?
- Eu só tava ensinando pra ele que ninguém perde pra mim numa lutinha.
- Isso é verdade Justin, a Ma nunca perde.
- Ah tia, eu que deixei ela ganhar.
- Aham, acredito! – Pelo menos minha mãe ficou do meu lado né – Fiz uma torta salgada e tem suco lá dentro, vocês vêm comer? – o Justin nem deixou ela terminar de falar, já saiu correndo igual a um desesperado, e quando chegou na porta ficou parecendo aqueles ratinhos guiados pelo cheiro do queijo, foi engraçado.
- Minha mãe conquista todo mundo pela boca, cuidado.
- Ela já me conquistou, aliás, já me adotou.
- Aham, claro. Isso tudo é vontade de entrar pra família?
- Não me enche, coloca pra mim, essa torta ta com uma cara linda.
- Fofo, a empregada morreu queimada ta? Sua mão não vai cair se você se servir.
- Que vingativa.
- Você ainda não viu nada.
- Quer dizer que ainda vou ter chances de ver?
- Você tem o resto do feriado pra me provar que é o oposto do que eu julgo ser, digamos que ainda faltam 60% de mudanças.
- E o que eu ganho com isso?
- Uma estrelinha dourada na tesa – ri – nada, a não ser que amizades passem a ter valor pra você.
- Então quer dizer que agora você é minha amiga?
- 60 %Justin, 60%.

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