Gosto das tuas mentiras, não porque elas me iludem mas porque elas são bem feitas. É estranho quando alguém que tu conhece em uma semana diz que te ama e mais estranho ainda quando se passa um ano e a mesma pessoa ainda continua dizendo que te ama. E sim, estou me referindo a você, porque você é que nem os outros caras a diferença é que além do sexo, também adora ver corações partidos por ai. Você podia ser o embrulho mais lindo de todos os presentes por ai, mas era um dos piores. E o problema, é que eu sempre gostei mais do embrulho do que do presente. Você sempre é o primeiro que eu tenho vontade de mandar sms quando eu acordo, o primeiro e único que quando eu vejo eu fico nervosa, você é infelizmente a minha promessa de ano novo, todos os anos, aquela promessa que a gente diz que vai esquecer, que não passa nem uma semana já quebra ela, ou então na mesma noite de ano novo quando você bate na porta da minha casa. E você bate sem se importar, bate porque sabe que eu vou abrir, mas dessa vez vai ser o contrário, eu não vou abrir. Você pode vir aqui, insistir, mas eu não vou abrir.
- Vou ter que ficar batendo aqui até quando?
- Até você perceber que eu não vou abrir, e deveria perceber isso agora.
- A para com isso Ma.
- Justin, faça-me o favor de sair daqui, tem mais de 100 portas nessa rua pra você bater, já pode sair da minha porque aqui você não vai entrar.
- Eu não quero entrar, só quero que você desça aqui e converse comigo.
- Você ta bêbado?
- Eu não bebi.
Então ele gargalhou, riu como se eu tivesse contado alguma piada bem engraçada, mas, não tinha graça, não tinha nada, só um idiota qualquer batendo na porta da minha casa em pleno ano novo.
- Sai daqui, porque não vai adiantar nada.
- Não vou sair até você descer aqui e falar comigo.
Eu realmente sabia que ele não sairia de lá até eu abrir a porta, mania escrota de ficar perseguindo meus passos e não deixado eu viver em paz sem a sombra dele perto de mim, fui lá e abri.
- Que cara é essa Ma? Da um sorrisinho vai.
- Essa é a única cara que eu tenho.
- Pra que tanta grosseria Maria Alice?
- Não interessa cara, agora você já pode ir embora.
- Não sei como chegar em casa, e decorado só seu seu endereço mesmo.
- Tua casa fica ali no final da rua dobrando a esquerda, a maior casa aqui do bairro, agora já pode ir.
- Eu bebi, posso ser atropelado, me leva.
- Eu não acredito nisso Justin.
Então eu bati a porta, fez um barulho tão alto que até ele deu uma acordada. Eu segui andando, batendo o pé no chão que nem uma guria mimada, não importava, eu só queria deixar ele naquela maldita porta, e ir embora pra minha casa.
- Já ta chegando?
- Quando chegar tu vai saber, não reconhece a própria casa?
- Você fica bonita assim.
- Assim como? Te detestando? Também acho, as pessoas comentam.
- Preocupada.
A gente chegou, o cachorro dele tava dormindo, o pai dele viajando, ele tava sozinho, e dessa vez, redondamente sozinho, por que eu já estava de saída.
- Eu não to preocupada, para de ser ridículo.
- Me trouxe aqui por que então?
- Por que eu sou burra, se cuida.
- Me ajuda a abrir a porta, a chave não quer entrar na fechadura, juro.
Mas é claro que a porta da casa dele estava aberta, mas ele se apoiou em mim e aquilo foi quase um socorro pra mim subir com ele aquelas escadas longas, mas não aguentei o peso dele, não porque ele era gordo, mas sempre fui muito fraca. Deixei ele deitado no sofá, estava chovendo, fui preparar um chocolate quente pra ele, porque era ano novo e eu estava boazinha demais até.
- Fiz chocolate quente, se quiser ligar pro teu irmão o telefone ta ai do lado, to saindo.
- E pra te ligar como eu faço?
- Aperta "sou idiota", talvez funcione.
- Espera Ma, fica.
- Para, já tem tanto tempo que acabou e tu fica correndo atrás, cadê aquele cara que já não sabia mais se sentia a mesma coisa? Amanhã eu vou ir pro salão e fazer uma mudança completa em mim, lavar, pintar todas as paredes do meu quartos que tem a porcaria do teu cheiro, talvez queimar minhas roupas e comprar novas. Jogar no lixo todas as coisas que tu me deu porque aquilo não ta significando mais nada pra mim.
- Faz o que quiser.
- Eu sempre fiz.
- Você pode ficar?
Nossa, ele já tava pedindo pra mim ficar como se a gente fosse ter mais alguma coisa, muito otário mesmo.
- Ta, eu fico, mas só porque é seu aniversário.
Ele estava sentado no sofá e sentei na cadeira ao lado. - Satisfeito?
- Para de besteira, deita aqui.
Eu peguei meu casaco e deitei lá ainda afastada dele, tava um frio absurdo, ele se levantou e me trouxe um edredom.
- Se cobre, eu sei que tu não aguenta o frio daqui.
- Tu não consegue abrir a porta de uma casa aberta, subir as escadas mas consegue me trazer um edredom?
- Depois daquele chá de bosta que tu fez, qualquer bebida alcoólica perde o efeito.
Ele, de entrosado que é, sentou no sofá. Eu não reclamei, por que não da pra reclamar, tava frio e eu queria mesmo cafuné. Ele se encostou em mim, e pra variar, eu me encaixei. A gente se encaixava. Ele arrumou cada fio de cabelo meu, depois contou as pintinhas do meu braço, ai beijou meu nariz e sabia que, por mais que eu tentasse, não conseguia abrir o olho, em uns três minutos eu dormiria. E eu dormi. Sonhei com um dia bem lindo, num lugar bem divertido, e, na minha cabeça, no meu sonho, no meu subconsciente, eu e ele fazíamos sentido. Eu acordei eram umas duas da tarde, ele tava me olhando, e eu semicerrei os olhos pra enxergar direito, era a merda do quarto dele.
- Que que eu to fazendo aqui?
- Não cabia nós dois no sofá, ai eu te trouxe pra cá e dormi lá em baixo, pode até conferir nas câmeras de segurança.
- Eu acredito em você.
- Sério?
- Não.
- Suspeitei.
- Então, você já ta bem, to indo.
- Não vai não, fica só mais um pouco.
- É sábado, já já alguém te liga e você sai.
- Não, porra, escuta. Você só fala, que merda! Eu to desde ontem tentando falar e você me empurra chocolate quente, sono, desculpas, falatórios. Caralho! Você acha mesmo que eu não sei meu endereço? Eu tenho ele anotado na carteira pra usar nesses casos mais extremos, eu passei em casa antes de ir na sua, só pra ter certeza de que não tinha ninguém aqui e de que o spike já tava bem. Já fazem seis meses que acabou, que sou eu pro meu lado e você pro seu, que você me ignora e que eu finjo que tu não existe. Seis meses que a gente fica mentindo. Eu não preciso de você só pra me ajudar a subir a escada, ou pra abrir a porta, ou pra me levar pra casa ou pra cozinhar. Eu preciso de você pra…
- Você não gosta de mim. Você nunca gostou. Você só diz que sente falta por que você não tem, igual tu sente falta de um carro, de um avião, de uma viagem. É só por isso.
- Um carro não me deixa sem sono, um avião não me deixa sem fome, e uma viagem não melhora meu humor na segunda de manhã. É você. É você que me acorda no início da semana e me diz o que eu tenho pra fazer, é você que me leva pra tirar sangue por que eu odeio agulha, é você que dorme aqui só por que não tem ninguém, é você que me abraça nos dias mais filhos da puta, é você que aguenta minhas grosserias, é você, entende?
- Assim como poderia ser qualquer uma.
Então ele se aproximou, encostou cada milímetro do corpo dele no meu, eu conseguia sentir o coração dele bater e a respiração dele no meu ouvido. E doeu, doeu ver que o coração dele tava acelerado, que ele tava respirando de um jeito irregular, ver que o meu corpo tava reagindo do mesmo jeito, e que pior do que isso, eu tava me dando por vencida. Ele levantou uma das minhas mãos e colocou no peito dele, e a outra na nuca.
- Viu, meu coração não fica assim, e eu não me arrepio. Você sabe que não. A gente pode fazer uma lista de todas as gurias com quem eu já passei os momentos mais legais do mundo, as gurias que já encostaram em todas as partes de mim, tu sabe que ninguém me deixa vulnerável assim.
- Os melhores momentos tu passa com elas, que bom.
- É, eu passo com elas por que com elas eu bebo, eu me divirto, eu falo coisa bonitinha, eu dou presente, eu dou beijinho na frente dos outros. Mas, você, com você não. Por que só você gosta de mim quando eu já to bêbado, quando eu já to com esse cheiro de cigarro, depois que eu já beijei mil pessoas, depois que eu já distribuí paixão. Só você gosta desse quadro depois que a moldura boa vai embora.
- E você acha justo?
- Justo não, mas, eu acho lindo. Eu acho tão lindo quando eu te ligo e você atende, quando eu choro por outra guria e você me abraça falando que ela que não presta, quando eu falo que o choro era mentira, que eu só tava puto por que ela não me deu e tu ri. Eu acho lindo quando eu não te atendo e tu vem aqui em casa me lembrar das coisas, das provas, das datas, e ainda deixa alguma comida pronta. Eu acho lindo quando você escreve naquele seu diário verdinho que te deram de presente, e eu acho lindo quando você chora. Eu sei que você deve querer me socar por isso, mas, eu acho lindo quando você me vê com outra pessoa e chora. Quando você me ouve gritando besteira contigo e chora. Quando você vê que eu não presto e chora. Por quando você chora eu sinto tanta necessidade de deixar de ser otário com você, que foi bem em uma dessas que eu te deixei pra trás. Eu deixei por que é lindo te ver chorar, mas, é três vezes melhor te ver sorrindo. E, eu sou louco por você, por que você chora, e você ri, e você me abraça, e faz qualquer furacão parecer só um ventinho.
- Loucura não é amor.
- Você sabe que eu só sei ser louco, eu nunca soube amar.
- Por isso eu não fico.
- Por isso você volta, é diferente.
Ele tinha razão, filho da mãe, ele sempre tinha. E eu sofria tentando fazer ele aprender a amar, por que eu não conseguia aceitar o fato de ver ele se perder e ser obrigada a achar, só pra mostrar pra ele que, talvez, se ele quisesse muito, ele podia amar. Que era só ele tentar. E era uma merda saber que ele tava certo, por que, eu não queria que ele tivesse.

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