Cheguei em casa e, em questão de minutos, já estava pronta pra dormir. As casas aqui eram estilo americanas; tem uma janela que te da acesso ao telhado, o telhado é virado pra casa do vizinho, não tem muros nesse condomínio, então fica tudo bem aberto e sem privacidade. Sentei no meu telhado, peguei meu violão e tentei tocar alguma coisa, faço isso quando to meio confusa, ou sem nada pra fazer. Comecei a tocar uma música que eu tinha feito a um tempo, essas músicas que são mais sonhadoras que a gente mesmo. Eu cantei como se houvesse uma multidão lá em baixo, até que uma voz que eu não queria ouvir me interrompeu.
- Tu canta bem guria.
- Felipe, eu vou começar a achar que você ta apaixonado, falando sério mesmo.
- Que mal agradecida! Eu podia te tacar um balde de água por você ter me acordado com essa barulheira.
- Ou podia ter voltado a dormir.
- Gostei desse refrão, "entre nós dois, aah".
- Nossa, você canta tão bem que já pode parar.
- Invejosa.
- Eu vou entrar, preciso dormir, a semana mal começou e eu já to sofrendo por que sexta nunca chega.
- Vê se acorda cedo amanhã, você demora demais.
- Vai cagar.
- Ta bom, eu vou, mas, acorda cedo ok? Sonha comigo.
- Eu não.
- Eu sei que você vai sonhar.
- Beleza. Dorme com Deus!
- Tu também, guria.
Que mania feia de chamar os outros de guria, na verdade, os outros não, eu. Mas, eu gostava do Felipe. Eu não sei por que, mas, era sempre muito bom ter ele por perto, parecia que a gente já se conhecia a bastante tempo, ele me entendia sem que eu precisasse me explicar demais. Tudo entre nós dois caía como uma luva, Maria Alice e Felipe, uma amizade entre menino e menina sem complicação, as câmeras já podem aparecer né? Por que deve ser pegadinha. Enfim, não vou zombar da sorte, finalmente ficamos amigas. As coisas estão dando certo, isso me conforta, por que eu preciso dizer, já to cansada de mudanças.
- Boa noite filha.
- Boa noite mãe.
Ela sempre ia ao meu quarto desejar uma boa noite, me abençoar, dar aqueles beijinhos de mãe e me cobrir. Às vezes ela deitava comigo, conversava sobre como tinha sido o dia, mas, eu sabia que aquilo era só um pretexto pra me fazer ficar com sono e nem perceber que ela dormiria ali. Fazer o que, ela tinha aprendido com a melhor, eu sempre o fazia também. Eu tava bem cansada, tentei evitar as coisas que tinham acontecido hoje e dormi. Dormi um sono maravilhosamente bom.
- ACORDA FLORZINHA!
- Mãe, você e o Felipe tem algum tipo de acordo pra me irritar de manhã?
- Você vai se atrasar.
Infelizmente ela tava certa, me arrumei na velocidade da luz, comi alguma coisa que tinha gosto de nada e assim que eu tava saindo de casa o Fe tava chegando, mas que porra é essa o menino que eu mal conheço e já estou chamando de Fe? Ok, tudo bem, era como se eu já o conhecesse faz tempo. Ele pensou em dizer algo, certeza que pensou, mas, não disse, só riu e continuou andando. Nós cantamos the strokes até uma quadra antes de chegar na escola, depois ficamos conversando sobre as aulas de tarde que teriam início na semana seguinte e fomos pra sala. Quarta feira, dia qualquer um, aula de matemática. Depois reclamam que a gente não curte matemática, porra, colocam uma mula pra dar aula. Certeza que minha professora tinha mais de cem anos, e ela gritava como se não houvesse amanhã, falava cuspindo e ainda cutucava os alunos. Que merda. Eu e o Fe passamos mil bilhetinhos durante a aula, eu não tava nem ai pra delta, ela que me desculpe, mas, na boa, b²-4.a.c? E agora x ainda tem linha? Minha filha, saudades de quando matemática era só numero. Dormi em umas aulas, participei de outras, ri muito em outras, fiz o cabelo, a unha, cinco filhos, um frango, construí uma muralha e o dia ainda não tinha acabado. Nem o intervalo tinha chegado, alguém me explica? O Justin tava conversando com umas pessoas, daí ele veio até o Felipe, que tava do meu lado e disse:
- E ai guri, beleza?
- Na paz.
- Então, esse final de semana vai ter uma festa lá em casa. Meu irmão vai levar o pessoal da faculdade, daí se estiver tudo bem pra ti, aparece lá. Tu também Ma, se quiser ir, todo mundo aqui sabe o endereço.
Então ele saiu, eu fiquei pensando num jeito de tacar uma pedra na cara dele. Primeiro ele é babaca, depois escreve um bilhetinho legal sobre mim, depois me ignora, e agora me chama pra uma festa? Qual é! Só tem gente estranha nesse lugar, mas, beleza, eu não iria mesmo. Não queria muito contato, até por que, festa na minha língua é qualquer lugar com os meus amigos, que, por acaso, estavam a uns mil quilômetros de mim. A aula acabou, finalmente tinha acabado. Na hora da saída não achei o Felipe, daí ele me mandou uma mensagem falando que ia pro futebol hoje, fui sozinha, foi bom até, cantei meus refrões sem medo. Cheguei em casa e a minha mãe não estava, porém, tinha comida de verdade, até deixei um bilhetinho na geladeira agradecendo. Comi e fui pro computador, era dia de skype, eu precisava falar pra Mari como tudo tava diferente e legal aqui.
- A-M-I-G-A!
- Ai Mari, que saudade!
- Me conta tudo, sério, já pode me adiantar como vão ser minhas férias nesse mar de gente bonita.
- Aqui não é muito legal, sei lá, chove o dia todo. Conheci uns guris legais, um deles é meu vizinho, o que eu mais converso, ele chama Felipe, tem nossa idade, é lá da sala. Têm umas gurias bem biscates, nada muito diferente daí. Os professores são bem diferentes, meio velhos e com umas manias chatinhas, mas, to levando. A minha mãe ta super feliz, e isso, pra falar a verdade, é o que importa. Acho que meu pai e meus irmãos estão bem. Tirando a falta que eu to sentindo dos meus cachorros e de você, ta tudo indo bem aqui.
- Eu to muito feliz que tu esteja se adaptando, de verdade, mês que vêm têm três feriados, já comprei a passagem e sim, eu vou ai quer você queira ou não. Preciso avaliar como está sua vida, quem sabe eu não me mude também né, cansei daqui HAHAHAHAHAHA, mentira, o Lucas me mata. Mas, a gente vai se ver o mais rápido possível ok?
- Ai Mari, você ainda ta namorando com esse atraso de vida?
- Não, mas, a gente vai voltar. Qual é, são cinco anos, entre idas e vindas, a gente vai casar.
- Eu sei que vão!
- Algum lindo na sua escola?
- Tem, mas, sei lá, aquelas belezas comuns.
- E esse Felipe?
- É super gente boa, a gente joga videogame juntos, a mãe dele é um amor, é legal.
- To nem ai, eu quero é uma foto.
- Eu já te contei que sou amiga dele a três dias? Pois é, não tenho foto.
- Bem sua cara esse desinteresse.
- Também te amo! Eu preciso sair, acho que vou correr um pouco, beijo Mari.
- Se cuida Ma, te amo e to com saudades.
A Mari é meio louca e meio moca também, mas, ela é a melhor amiga que alguém pode ter. A gente se conhece desde pequenas, melhores amigas desde então. Eu fui correr, conhecer melhor aquela rua, já fazia um tempo que eu tinha chegado, mas ainda não conhecia nada por ali. Descobri que tem um restaurante bem lindinho, tem mais cara de barzinho vintage e eu curti muito isso. Tem uma plaquinha escrita “apresentações ao vivo”, mas, aquele lugar é tão escondido que duvido muito que alguém que quer ser visto se apresente ali. Mais em baixo tinha um parque bem fechado, bem verde, bem lindo. Mais pra baixo uns prédios, e virando a esquina uma casa enorme e bonita. Eu voltei, já tava cansada de correr, e acabei chegando em casa junto com Felipe.
- Tava aonde?
- Não interessa.
- Fiz um gol pra você!
- Sério?
- Aham, os outros quatro foram pra maria chuteira que tava gritando meu nome, ela é gata pra caralho.
- Que merda de vida em…
- Eu acho muito boa, por sinal.
E ele fez uma cara de menino quando ta pensando em mulher pelada, que nojo, eu não era obrigada a ver aquilo. Cortei o mal pela raiz.
- Então, falando em falta de roupa pra lavar, o que tu vai fazer agora?
- Não, não vou pra sua casa com você te pegar, para de ser insistente Ma, você não faz meu tipo.
- Cadê as câmeras?
- Que câmeras?
- Pra eu começar a rir dessa sua pegadinha.
- Ra Ra Ra, palhaça.
- Lindão! É que não to conseguindo configurar a TV, só queria ajuda pra isso.
- Eu esqueci da sua falta de habilidade pra tudo que exige um controle né, a começar pelo videogame.
- Se fode! Me ajuda logo.
A gente foi pra minha casa, enquanto ele arrumava a TV eu tomei um banho frio e troquei de roupa, tava meio abafado. Quando eu desci ele tava colocando senha nos “canais proibidos” por que segundo ele eu era uma mocinha que não podia ter acesso aquele tipo de coisa, ok, entendi duas palavras do que ele disse, parei no mocinha. Fiz um lanche pra gente, sim, sou um amor de pessoa. Depois ele foi embora e eu assisti uns filmes até a minha mãe chegar. A gente jantou, conversou, ligou pro meu pai e pros meus irmãos e então a gente dormiu. A semana passou bem rápido, graças a Deus, tava sendo suportável toda essa história de mudança.

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