Minha casa ficava à umas cinco quadras da escola, era segunda feira, eu já tinha ido pra escola nadando, então acho que não tinha nenhum problema em voltar pra casa andando. Na hora da saído o clima tava uma delícia, perfeito mesmo pra eu voltar pra casa e ser feliz, porém, nem tudo são flores, na verdade, nada são flores, nessa cidade só tem frio e água mesmo. Menos de dez metros de caminhada e eu já tinha caído umas trinta vezes, pois é, sempre me dei bem com a chuva. Passou uns meninos de carro, umas meninas também, mas, tenho certeza que na cabeça delas elas estavam num jatinho particular, porque né, que cara de merda. Saiu a galerinha do skate, os da bicicleta e os que vão embora a pé; os mais lindos e sortudos, só que ao contrário. Enquanto eu reclamava de tudo, menos da humildade do ar, o que realmente me conquistou nessa cidade, uma sombra começou a me seguir. Qualquer pessoa olharia pra trás pra ver quem era, mas, tava tocando uma música boa demais, eu estava num relacionamento sério com meu fone, sem condições de prestar atenção no mundo. Senti um cutucão no braço, outro motivo pra eu não olhar, só desejei que aquela mão infeliz nunca mais fizesse aquele movimento que implora “me-ampute-odeio-estar-aqui-mesmo”.- Oi Ma!
Eu ignorei, que babaca te cutuca e começa a berrar no meio da rua?
- Olha aqui, eu to falando com você!
- Que pena né, por que tava quase chegando no refrão da música e eu queria mesmo cantar, só que sua mão e sua gritaria ficaram com inveja e não deixaram. - Eu me virei, nem sabia quem era, mas, eu já não queria papo, que merda, era minha música, todo mundo gosta de uma música que acha que ela conta a sua história certo? Porque ele tinha que estragar a minha música? Ah, antes que eu esqueça, depois de má, meu apelido é TPM, a habilidade em exagerar todos os problemas que antes não eram nada.
- Oi pra você também Maria.
- Felipe, se você me chamar de Maria de novo, a ultima coisa que você vai lembrar quando acordar no hospital é do soco que eu dei na sua cara.
Ele riu, riu um riso lindo que me fez gostar da presença dele ali.
- Ta ouvindo o que enjoada?
- Quer saber da vida a dois casa.
- The fray, bem sua cara de garotinha.
- Nossa, que fala estranha no meio dessa sua inveja.
A gente riu, já tava bem pertinho de casa, fui me despedir que nem essas menininhas fofas fazem, só pra apagar um pouco da má impressão. Era segunda feira, ninguém podia exigir muito de mim, mas, ainda assim, o Felipe foi legal, era o mínimo que eu podia fazer.
- Então, essa é minha casa, não me sequestre e nem me assalte, por favor. – Eu tentei dar um beijo na bochecha dele, mas, ele parecia uma girafa, que merda de rosto alto. Daí ele deu um beijo na minha testa, olhou pra mim com a risada mais sem motivo do mundo e foi indo em direção a minha casa.
- Eu contei que a casa é minha? Assim, só por desencargo de consciência.
- Eu moro na casa do lado, vizinha.
Eu queria implicar com ele, brigar um pouco, reclamar, mas, aquilo era a coisa mais legal que tinha me acontecido em três meses. Alguém que não fosse totalmente estranho morando por perto, isso já era estranho, mas, tinha lá suas vantagens.
- Sério? Que privilégio…
- Eu sei que sou o máximo!
- Na verdade o privilégio é todo seu, assim, não é por nada não, mas, sou a pessoa mais legal daquela escola, só não conta pra ninguém. Detesto inveja.
Eu rindo na segunda feira? Devolvam a minha personalidade e levem embora essa mentira! Entrei em casa um pouco melhor do que sai, graças a Deus, eu precisava de qualquer coisa que não me fizesse jogar tudo pro alto, arrumar as malas e ir pro colo do meu pai. Pois é, meus pais se separaram, minha mãe recebeu uma proposta de emprego interessante, nós duas aceitamos. Ela disse que só viria se eu viesse, poxa, ela já tinha sacrificado a vida dela por mim, aberto mão de tudo, eu precisava estar ali com ela e por ela.
- Oi mãe, cheguei.
- Oi meu amor!
- Chamou de amor… Lá vem! Não acredito que você comprou um almoço de caixinha mãe! – Eu precisava rir dela, coitada, não tinha tempo nem pra respirar, quanto mais pra cozinhar, mas, nada de comida ruim era a regra de ouro.
- Desculpa Boa, prometo que é a última vez, amanhã vou me organizar melhor, ok?
- Ok, mãe, a propósito, meu apelido é Ma, ok?
- Mas pra mim você é boa.
Explicar alguns tipos de coisa pra gente velha é tipo cortar pedra com uma colher de plástico; simplesmente não nasceu pra acontecer.
- Que lindo mãe! Tocante mesmo.
- Como foi o primeiro dia de aula?
- Um macaco invadiu a escola, fomos abduzidos, teve um tiroteio na hora do intervalo por que um menino comprou a última coca da cantina. As meninas de lá lutam MMA, os garotos são todos tatuadores, a gente passou o intervalo brincando de desenho, a propósito, vou fazer um dragão na testa, achei bem divertido. O professor de física é bem legal, só que tirando a parte do legal e substituindo por um babaca. E as meninas da minha sala todas levam seus filhos pra aula, é bem interessante mãe…
- Não pode ter sido tão ruim.
- De fato, não foi. – A gente riu.
- Então, eu olhei pela janela…
- Não mãe, eu não gosto dele.
- Só ia dizer que a mãe dele propôs um jantar hoje a noite pra interagir, não entendi direito, mas, ela não tem cara de quem não tem tempo pra cozinhar, pra falar a verdade, ela tem cara de desocupada, mas, não diz que foi eu que disse.
- Eu tenho que ir?
- Tem.
- Ok, quando for se arrumar me chama.
Eu gosto de me arrumar ao mesmo tempo que minha mãe, ela me ajuda com coisas que eu sempre me pergunto, como “o que vestir”, essa é sem dúvidas a que eu mais faço. Dormi a tarde toda, frio só serve pra isso mesmo, e acordei com uma sms. “Oi. Só queria dizer que sinto sua falta, a casa ficou vazia sem você, mal posso esperar as férias chegarem, beijos, papai”. Se tem uma coisa no mundo que parte meu coração no meio, é meu pai. Ele é uma mistura de tudo de bom que existe com um pouco de grosseria, coragem e desenho animado. Ele é tipo aqueles galãs de revista em quadrinho, não importa, sendo o que for, é perfeito e é o meu pai. É perfeito por ser o meu pai, e não importa o quanto eu negue, sinto uma puta falta dele. Respondi. “Oi gordinho, também to com saudades. Prometo que vai passar logo ok? A casa aqui é bem grande, quando der uma folga ai, vem me ver, até te deixo dormir no… Mentira, você ronca, te deixo dormir no jardim, nada de ficar perto do meu quarto hahaha. Me liga quando der, e tira férias dessas reuniões. Te amo”. Tomei um banho bem quentinho, coloquei um vestidinho bem básico, peguei um casaco, coloquei qualquer coisa dentro da minha bolsa, calcei uma sapatilha com cheirinho de morango e, pra variar, fiquei pronta antes da minha mãe. Ela me pediu pra passar um batom, passei. A gente saiu meio que as pressas, chegamos meia hora atrasadas na casa do vizinho, e nem pudemos por a culpa no trânsito,que merda.
- Olá! Essa é minha filha Maria Alice, mas, pode chamar de B…
- Pode me chamar de Ma, oi, obrigada pelo convite, e sua casa é absolutamente linda.
- Que encantadora Ma, prazer, meu nome é Luciana, meu marido ta viajando, mas, o Felipe ta aqui. Vocês estudam na mesma escola até.
- Na mesma sala, mãe. – O Felipe disse.
- Oi Felipe.
- E ai. – Que babaca, ele agiu como se eu fosse uma estranha, to nem ai se eu era, que babaca!
- Então mãe, a gente vai ver umas coisas aqui, vou mostrar a casa pra Ma, quando a comida estiver pronta me chama.
- Então é isso?
- Isso o que estranho?
- Você vai ficar vindo na minha casa me assediar?
- Felipe, numa escala de zero a ter que me mudar, você é tipo me mudar pra Amazônia. Putz, que guri chato.
- Cala a boca e presta atenção nesse…
- MEU DEUS VOCÊ TEM ESSE JOGO? COMO? EU PROCUREI EM TODOS OS SITES DE VENDA PROÍBIDA!
- Tenho meus contatos…
- Pronto pra perder?
- Sonha.
Aquele jantar já estava sendo maravilhoso, pelo videogame, é claro. A tia Luciana chamou a gente pra jantar, a gente foi. Depois jogamos um pouco mais e fui pra casa. O Felipe me mandou umas novecentas sms falando que tinha ganhado, certeza que ele pediu meu número só pra não me deixar dormir. Respondi todas falando que era sorte e blablabla, mas, ele era bom. Era bom não só com o videogame, ele mandava bem em decoração também. No meio do jantar a mãe dele comentou que foi ele quem montou toda a casa, que escolheu tudinho. Sorte a deles né, por que se ela decorasse tão bem quanto cozinha, a casa dela já não seria tão bonita. Brincadeira! Tava tudo gostoso, ela só deixou o frango queimar, mas, tranquilo. Eu precisava dormir, amanhã era terça, eu ia conhecer mais gente, mais professor, nossa, que alegria, mal posso me conter… Fiz uma oração rápida, Deus já tava sendo muito bonzinho, não queria dar trabalho.
Eu ignorei, que babaca te cutuca e começa a berrar no meio da rua?
- Olha aqui, eu to falando com você!
- Que pena né, por que tava quase chegando no refrão da música e eu queria mesmo cantar, só que sua mão e sua gritaria ficaram com inveja e não deixaram. - Eu me virei, nem sabia quem era, mas, eu já não queria papo, que merda, era minha música, todo mundo gosta de uma música que acha que ela conta a sua história certo? Porque ele tinha que estragar a minha música? Ah, antes que eu esqueça, depois de má, meu apelido é TPM, a habilidade em exagerar todos os problemas que antes não eram nada.
- Oi pra você também Maria.
- Felipe, se você me chamar de Maria de novo, a ultima coisa que você vai lembrar quando acordar no hospital é do soco que eu dei na sua cara.
Ele riu, riu um riso lindo que me fez gostar da presença dele ali.
- Ta ouvindo o que enjoada?
- Quer saber da vida a dois casa.
- The fray, bem sua cara de garotinha.
- Nossa, que fala estranha no meio dessa sua inveja.
A gente riu, já tava bem pertinho de casa, fui me despedir que nem essas menininhas fofas fazem, só pra apagar um pouco da má impressão. Era segunda feira, ninguém podia exigir muito de mim, mas, ainda assim, o Felipe foi legal, era o mínimo que eu podia fazer.
- Então, essa é minha casa, não me sequestre e nem me assalte, por favor. – Eu tentei dar um beijo na bochecha dele, mas, ele parecia uma girafa, que merda de rosto alto. Daí ele deu um beijo na minha testa, olhou pra mim com a risada mais sem motivo do mundo e foi indo em direção a minha casa.
- Eu contei que a casa é minha? Assim, só por desencargo de consciência.
- Eu moro na casa do lado, vizinha.
Eu queria implicar com ele, brigar um pouco, reclamar, mas, aquilo era a coisa mais legal que tinha me acontecido em três meses. Alguém que não fosse totalmente estranho morando por perto, isso já era estranho, mas, tinha lá suas vantagens.
- Sério? Que privilégio…
- Eu sei que sou o máximo!
- Na verdade o privilégio é todo seu, assim, não é por nada não, mas, sou a pessoa mais legal daquela escola, só não conta pra ninguém. Detesto inveja.
Eu rindo na segunda feira? Devolvam a minha personalidade e levem embora essa mentira! Entrei em casa um pouco melhor do que sai, graças a Deus, eu precisava de qualquer coisa que não me fizesse jogar tudo pro alto, arrumar as malas e ir pro colo do meu pai. Pois é, meus pais se separaram, minha mãe recebeu uma proposta de emprego interessante, nós duas aceitamos. Ela disse que só viria se eu viesse, poxa, ela já tinha sacrificado a vida dela por mim, aberto mão de tudo, eu precisava estar ali com ela e por ela.
- Oi mãe, cheguei.
- Oi meu amor!
- Chamou de amor… Lá vem! Não acredito que você comprou um almoço de caixinha mãe! – Eu precisava rir dela, coitada, não tinha tempo nem pra respirar, quanto mais pra cozinhar, mas, nada de comida ruim era a regra de ouro.
- Desculpa Boa, prometo que é a última vez, amanhã vou me organizar melhor, ok?
- Ok, mãe, a propósito, meu apelido é Ma, ok?
- Mas pra mim você é boa.
Explicar alguns tipos de coisa pra gente velha é tipo cortar pedra com uma colher de plástico; simplesmente não nasceu pra acontecer.
- Que lindo mãe! Tocante mesmo.
- Como foi o primeiro dia de aula?
- Um macaco invadiu a escola, fomos abduzidos, teve um tiroteio na hora do intervalo por que um menino comprou a última coca da cantina. As meninas de lá lutam MMA, os garotos são todos tatuadores, a gente passou o intervalo brincando de desenho, a propósito, vou fazer um dragão na testa, achei bem divertido. O professor de física é bem legal, só que tirando a parte do legal e substituindo por um babaca. E as meninas da minha sala todas levam seus filhos pra aula, é bem interessante mãe…
- Não pode ter sido tão ruim.
- De fato, não foi. – A gente riu.
- Então, eu olhei pela janela…
- Não mãe, eu não gosto dele.
- Só ia dizer que a mãe dele propôs um jantar hoje a noite pra interagir, não entendi direito, mas, ela não tem cara de quem não tem tempo pra cozinhar, pra falar a verdade, ela tem cara de desocupada, mas, não diz que foi eu que disse.
- Eu tenho que ir?
- Tem.
- Ok, quando for se arrumar me chama.
Eu gosto de me arrumar ao mesmo tempo que minha mãe, ela me ajuda com coisas que eu sempre me pergunto, como “o que vestir”, essa é sem dúvidas a que eu mais faço. Dormi a tarde toda, frio só serve pra isso mesmo, e acordei com uma sms. “Oi. Só queria dizer que sinto sua falta, a casa ficou vazia sem você, mal posso esperar as férias chegarem, beijos, papai”. Se tem uma coisa no mundo que parte meu coração no meio, é meu pai. Ele é uma mistura de tudo de bom que existe com um pouco de grosseria, coragem e desenho animado. Ele é tipo aqueles galãs de revista em quadrinho, não importa, sendo o que for, é perfeito e é o meu pai. É perfeito por ser o meu pai, e não importa o quanto eu negue, sinto uma puta falta dele. Respondi. “Oi gordinho, também to com saudades. Prometo que vai passar logo ok? A casa aqui é bem grande, quando der uma folga ai, vem me ver, até te deixo dormir no… Mentira, você ronca, te deixo dormir no jardim, nada de ficar perto do meu quarto hahaha. Me liga quando der, e tira férias dessas reuniões. Te amo”. Tomei um banho bem quentinho, coloquei um vestidinho bem básico, peguei um casaco, coloquei qualquer coisa dentro da minha bolsa, calcei uma sapatilha com cheirinho de morango e, pra variar, fiquei pronta antes da minha mãe. Ela me pediu pra passar um batom, passei. A gente saiu meio que as pressas, chegamos meia hora atrasadas na casa do vizinho, e nem pudemos por a culpa no trânsito,que merda.
- Olá! Essa é minha filha Maria Alice, mas, pode chamar de B…
- Pode me chamar de Ma, oi, obrigada pelo convite, e sua casa é absolutamente linda.
- Que encantadora Ma, prazer, meu nome é Luciana, meu marido ta viajando, mas, o Felipe ta aqui. Vocês estudam na mesma escola até.
- Na mesma sala, mãe. – O Felipe disse.
- Oi Felipe.
- E ai. – Que babaca, ele agiu como se eu fosse uma estranha, to nem ai se eu era, que babaca!
- Então mãe, a gente vai ver umas coisas aqui, vou mostrar a casa pra Ma, quando a comida estiver pronta me chama.
- Então é isso?
- Isso o que estranho?
- Você vai ficar vindo na minha casa me assediar?
- Felipe, numa escala de zero a ter que me mudar, você é tipo me mudar pra Amazônia. Putz, que guri chato.
- Cala a boca e presta atenção nesse…
- MEU DEUS VOCÊ TEM ESSE JOGO? COMO? EU PROCUREI EM TODOS OS SITES DE VENDA PROÍBIDA!
- Tenho meus contatos…
- Pronto pra perder?
- Sonha.
Aquele jantar já estava sendo maravilhoso, pelo videogame, é claro. A tia Luciana chamou a gente pra jantar, a gente foi. Depois jogamos um pouco mais e fui pra casa. O Felipe me mandou umas novecentas sms falando que tinha ganhado, certeza que ele pediu meu número só pra não me deixar dormir. Respondi todas falando que era sorte e blablabla, mas, ele era bom. Era bom não só com o videogame, ele mandava bem em decoração também. No meio do jantar a mãe dele comentou que foi ele quem montou toda a casa, que escolheu tudinho. Sorte a deles né, por que se ela decorasse tão bem quanto cozinha, a casa dela já não seria tão bonita. Brincadeira! Tava tudo gostoso, ela só deixou o frango queimar, mas, tranquilo. Eu precisava dormir, amanhã era terça, eu ia conhecer mais gente, mais professor, nossa, que alegria, mal posso me conter… Fiz uma oração rápida, Deus já tava sendo muito bonzinho, não queria dar trabalho.
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