- ACORDA PRA VIDA MINHA FILHA! DA BOM DIA PRA DEUS, PRO SOL, PRO VIZINHO, ALIÁS, ELE TA ESPERANDO AQUI A UMA HORA JÁ!
Por que essa louca ta gritando? Amo minha mãe, amo mesmo, mas, se tem uma coisa que ela faz que me irrita é não saber me acordar. Não me espanta, meu pai passou a vida toda me acordando, ela tava pegando a prática ainda. Pera, ela disse sol? Que lindo, tava frio e com sol, o clima perfeito pra começar um bom dia. Pera de novo, ela disse vizinho?
- To indo mãe! – Tomei o banho mais rápido do mundo, me arrumei voando e desci pra tomar um chá, ou café, ou leite com toddy, em fim, qualquer coisa.
- Bom dia flor do dia.
O Felipe sendo fofo na frente da minha mãe, tão espontâneo. - Sai daqui assombração.
- Maria Alice, cadê os bons modos?
- Ai, desculpa, na pressa deixei lá em cima, já volto. – Subi correndo, esqueci a mochila. Desci e eles estavam conversando como amigos de infância. Perdi alguma coisa?
- E ai florzinha? Vamos?
- Cadê?
- O que?
- A florzinha que vai com você?
A gente saiu de casa rindo e comendo um bolo que minha mãe tinha feito, sim, foi ela quem fez, e tava muito bom. Ele ficou o caminho todo falando de como minha mãe era gata, perguntando se ele tinha chance e eu falei que a maior chance dele era de calar a boca antes que ele perdesse a chance de ter uma. Chegamos na escola, meio que juntos, umas pessoas olharam, pena pra elas né, por que eu não fiz questão de olhar pra ninguém. Chegamos na sala, o pessoal ainda estava sentando, um ponto pra mim que não cheguei atrasada.
- Bom dia pessoal, preparados pra melhor aula das suas vidas?
- Claro! – Todo mundo respondeu no mesmo tom da pergunta.
- Então abram suas mentes na página um, por que, hoje, vamos escrever a história da vida de vocês. Façam duplas, aliás, casais. Um menino e uma menina, quero que um descreva o outro, mas, eu vou escolher, danadinhos. Não podem se conhecer tão bem, se não perde a graça!
- Pela chamada as duplas são: Ana Clara e Lucas, Maria e Felipe… – Droga, eu bem que podia ter a vida facilitada pelo destino né? Ou pela chamada. – Jéssica e Diego, Maria Alice e Justin… – Nesse segundo eu preferia que tivesse chovido. Qual é? Esse menino ri de tudo, quando não ta sendo inconveniente ta dormindo, que mané dupla, ele vai me descrever como? Que história da minha vida ele poderia dizer? Enquanto eu estava num embate épico comigo mesma, o Justin puxou a cadeira pra perto de mim e disse "vamos começar de novo?" COMEÇAR O QUE MEU FILHO? Minha mente queria gritar com ele que eu não tinha nada pra começar com ninguém, eu não gostava do jeito dele.
- Prazer, meu nome é Justin, todo mundo acha que eu sou babaca, mas, ninguém aqui me conhece. Minha mãe morreu quando eu tinha três anos, eu gosto de violão, bateria, piano, guitarra e tudo que faz um barulho legal nas músicas antigas. Tenho uma irmã e um irmão, e sim, meu pai casou de novo. Eu gosto de cantar. Gosto do frio daqui, tenho um cachorro que é o meu verdadeiro amor. Você já sabe bastante coisa, escreve o que eu te disse sobre mim, ai você vai terminar rápido e acabar com essa cara de quem ta sendo torturada só por que ta do meu lado.
Eu precisava devolver a altura, mas, confesso que ele me surpreendeu.
- Prazer, meu nome é Maria Alice,mas, pode me chamar de Ma. Meus pais se separaram à um tempo, mas, eles ainda são amigos e tal. Eu me mudei pra cá com minha mãe por causa do emprego dela, tenho três irmãos homens que moram na minha antiga cidade, uma melhor amiga, nenhum ex namorado, quero casar virgem, não to com cara de tortura, estou disposta a entender por que sua personalidade tem cheiro de n'ão-chega-perto-se-não-tu-se-fode", toco violão, arrisco no piano, escrevo algumas coisas pra relaxar, e pra sua cara de convencido sair, tu também pode escrever isso sobre mim e voltar pra sua turminha. E sinto muito pela sua mãe. Aposto que você tem o sorriso dela. – O que? Que merda foi essa Ma? Eu pensei a última frase alto, meu Deus, quem era eu pra falar alguma coisa da cara da mãe dele? Eu queria pedir desculpas, mas, ele tava rindo com uma cara meio estranha de quem podia chorar, mas, que não queria. Eu fiquei meio desesperada com aquela cara, o olho dele foi ficando grande, que merda! Mas, ele finalmente quebrou meu conflito pessoal com um toque. Ele afagou meu cabelo, colocando-o atrás da orelha.
- Eu tenho mesmo o sorriso dela, as covinhas, na verdade. – Ela devia ser linda, mas, isso eu pude controlar.
- Então ela deve ficar feliz lá de cima te vendo sorrir…
- Talvez.
- Vou terminar de escrever isso logo, preciso entregar umas coisas pro Felipe.
- Já com namoradinho?
- Não, é só que…
- Tu não me deve explicação… – E ele tava certo, por que eu tava me explicando? Ele riu, ainda bem, o clima tava meio estranho ali. Alguém pode me explicar o porquê? Eu queria dar um abraço nele, o abraço que me dão quando eu falo do meu avô, mas, parecia estranho e inapropriado. Então o descrevi no meu papel e entreguei pro professor. As outras duplas foram entregando suas descrições e previsões pro futuro um do outro, e no final, o professor fez uma roda no meio da sala.
- Então, agora eu vou ler as descrições, mas, não vou ler o nome de quem fez e nem pra quem são. Só vou ler, e no final, cada um vem aqui pegar a sua de volta e entregar pra quem foi escrito, ok? Alguma dúvida? – Minha única dúvida era onde eu iria enfiar minha cara quando o Henrique recebesse o papel dele.
- “Ele parece ser legal e acho que vai ter um futuro brilhante”
“ Ela é bem divertida, acho que vai casar logo”
“Não consigo não rir dele, ele pode ser comediante”
“Ela é estranha e não gostei dessa brincadeira”
Meu Deus, por que todo mundo escrevia coisas tão superficiais e pequenas? Eu ia morrer de vergo…
“Ele é diferente. Eu pré julguei, achei que ele fosse um babaca, mas, ele parece ser legal. Pela voz pode ser um ótimo cantor, ou pode ser um daqueles caras que cantam pros filhos dormirem. Essa capa de quem não está nem ai pra nada e esse aspecto de ‘dane-se tudo sou engraçado demais’ não me engana. Ele tem o sorriso da mãe, e pela cara que ele fica quando fala dela, aposto que tem o coração também. Independente do que ele vai ser, tenho fé de que vai ser um grande homem, uma boa pessoa.” – Era o meu. PUTA QUE PARIU MIL VEZES, era o meu, e provavelmente o mundo todo sabia que era o meu, mas, foda-se o mundo, eu sem querer tinha acabado de falar a vida toda do Justin pra trinta pessoas. Ele não olhou pra mim, só riu, mexeu na cabeça, como se estivesse montando um jogo difícil, riu de novo e ficou fitando o chão.
- “Ela é diferente das outras novatas, das outras meninas, de todo mundo. Eu não sei por que, mas, é. Ela olha pra onde ninguém olha. Pra variar, ela tem bem uma cara dessas santas que abraçam causas impossíveis. De qualquer forma, ela vai ser alguém que muitas pessoas teriam o prazer de conhecer, ou não, por que ela é má”. – Eu perdi a fala junto com o chão e o resto dos sentidos. Ele tinha mesmo escrito aquilo sobre mim? O Justin era uma anta em forma de gente, oco de tudo pra sentimentos. Fingi que não entendi, nem prestei atenção nos outros papeizinhos, quem queria saber? Peguei o meu e numa tentativa de fingir que ele, sem querer, tinha caído no lixo, o Justin o tomou da minha mão.
- Obrigada por isso.
- Por isso o que?
- É legal o que você fez, falar de mim como se eu fosse uma boa pessoa, por que, Ma, olha pra mim, da pra ver que tipo de cara eu sou né.
- Dá.
- Mas, valeu!
- Obrigada pelo que tu disse também.
- Eu menti, só queria ser legal.
- Eu também.
- Eu sei. – Ele riu. A gente riu. Foi uma risada estranha e desconcertante, cara, que aula confusa. Puta merda, tu vai pra escola achando que vai aprender pra que serve o PI e do nada tu tem que falar sobre o menino mais indiscutível do mundo. Eu não queria falar com ele e nem sobre ele, que embaraçoso, de verdade. Não gostei! Ele deve ter lido minha mente, se virou e foi embora conversar com uma menina magrela que tava encostada na porta parecendo um poste. O Felipe chegou, a gente conversou mais ou menos sobre a brincadeira dos papeis e fomos pro intervalo, graças a Deus, eu precisava sair daquela sala. O Justin passou o resto do dia abraçado com essa menina, não que eu tenha ficado olhando, mas, não importa. O Felipe desenhou alguma coisa no meu braço, falando que ele era lindo, e depois a gente foi pra casa. O dia tinha passado estranhamente rápido, ainda bem, odeio demoras.
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