Eu achei que não fosse dormir, mas, a prova evidente de que era só amizade era exatamente essa, tive a melhor noite de sono da minha vida. Dormi que nem uma criança, não tive sonhos, não acordei de noite, só deitei e acordei pela manhã, ou pelo menos eu achava que tava de manhã. Meu celular apitou um barulho de mensagem, eu normalmente não olharia, mas, pela primeira vez fiquei curiosa mesmo que ainda sonolenta. Era do Justin, e ele pediu pra eu olhar pela janela, por mais que parecesse ridículo, eu olhei. Ele tava lá em baixo treinando algum discurso sobre coisas que ele não gostava, pelo menos isso eu pude ouvir. Abri a janela, sentei na beirada, coloquei os pés no telhado e me apoiei na sacada. Ele tava com um papel na mão e tinha umas flores também.
- Essas flores são pra mim?
- É, ah, amm, não. Claro que não, eu só achei elas aqui no chão e resolvi pegar, mas, já vou devolver. – E ele as jogou pra trás num ato de “sumam”.
- Entendi, e são 4 horas da manhã, posso saber a que devo a ilustre presença? Por que amanhã é domingo, o último dia do feriado, e qualquer pessoa normal estaria dormindo.
- Na verdade, hoje já é domingo, o último dia do feriado, e por pura sorte, é o dia que acontece alguma coisa com os planetas, eu ouvi no jornal, mas, não entendi. E essa coisa super legal vai nos proporcionar o nascer do sol mais bonito que você já pode ter visto, então, vamos?
- Eu to de pijama, meu cabelo ta parecendo uma juba, eu não vou descer, e mesmo se eu fosse descer, não ficaria pronta em menos de 30 minutos.
- Ma, tu já olhou pra minha roupa? – Ele também tava de pijama. – É pra ser engraçado, por favor, vem logo.
- Só por que tu pediu por favor. – Desci bem rapidinho, de pantufa mesmo, por que pra quem já ta molhado um pingo é besteira.
- Esse papel é pra você, é uma lista de tudo que eu gosto e que eu não gosto.
- E pra que me serve isso?
- Pra você nunca me dar um queijo por exemplo.
- Ah, poxa Justin, to muito frustrada, comprei um queijo ontem pra você! – Ri até a vizinhança reclamar.
- Sempre tão cômica.
- Desculpa se eu ainda consigo ter bom humor de manhã.
- Ainda ta de noite, só fica de manhã depois que o sol chega.
- Desculpa garota do tempo, eu não queria ferir seus conhecimentos.
- Não estraga o momento ta Ma?
- Ele me colocou no carro e saiu dirigindo que nem um louco, extremamente rápido, eu quase não conseguia ver a paisagem, só vultos. Pedi umas mil vezes pra ele ir com mais calma, mas, ele só ria e acelerava. Tudo bem, se eu morresse minha mãe ia matar ele, já seria uma ótima vingança. Pela quantidade de vultos verdes a gente devia estar na Amazônia, mas, não questionei. Ele foi desacelerando, até que a gente tava em cima de uma espécie de morro enorme, que nos proporcionava a melhor visão do céu que poderia haver no mundo.
- Bem vinda a minha terceira casa. Eu geralmente venho aqui pra escrever mús… Quer dizer, escrever coisas, pensar, e ver o sol nascer.
- É lindo, lindo pra caralho. – Ele voltou no carro, pegou um edredom, uma garrafa térmica, duas xícaras grandes e um cobertor fininho. Com o edredom ele forrou o chão, daí nós sentamos em cima, ele meio que cobriu nós dois com a cobertinha de criança dele e colocou um café bem quentinho na minha xícara de borboleta. Eu não gostava de café, mas, confesso que aquele era bom, não sei por que, mas, era.
- Três, dois, um e voilá. – O céu começou a mudar de cor, com uma mistura de roxo, vermelho, laranja e amarelo. Juro que pude ver uns tons de verde também. Depois ficou rosa com um laranja enferrujado, daí pude ouvir um barulhinho tipo de panela quente na água, e quando eu menos esperei, o sol tava chegando. Eu olhei pro Justin e ele tava hipnotizado, não piscava, não se mexia e posso afirmar que nem pensava. Ele só ria, olhava pro sol e ria pro nada. Aquela luz o favoreceu, preciso dizer, ele nunca foi tão bonito. Enquanto eu o elogiava em pensamentos e o olhava ignorando totalmente a presença do sol, ele me olhou, se virou pra mim, comentou sobre o fato da minha boca estar roxa devido ao frio, pegou meu rosto em suas mãos como se eu fosse de pelúcia, deu um beijo na pontinha do meu nariz, e disse que eu fico linda a luz do sol. Eu não tava apaixonada, afinal de contas, amigos também assistem o sol nascer juntos, e riem juntos, e ficam juntos. Não tinha o menor problema, e eu acho que repeti isso por uns cinco minutos até que eu mesma pudesse acreditar. Ele ficou me olhando, rindo e me olhando.
- É, de fato, a coisa mais linda que eu já vi. – E eu juro que queria estar falando do sol, com todo o meu coração, eu juro que queria.
- Concordo, plenamente. – Ele comentou sem tirar os olhos dos meus. – Amigos, ele riu e repetiu.
- Sem dúvidas, amigos. – Apoiei a cabeça no ombro dele e quando eu vi, já estávamos deitados e rindo, contando piadas, fazendo cócegas, perturbando um ao outro e a melhor parte de tudo, felizes de estarmos ali. Por que, pelo menos eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo, e minha cabeça podia me condenar por isso, ela estaria certa, mas, eu simplesmente não queria.
- “So then I took my turn, oh what a thing to’ve done, and it was all yellow” – Eu tava mesmo de olhos fechados, mas, eu não tava dormindo, e ele tava cantando yellow, e tava cantando meio que sussurrando, com a voz mais linda do mundo, e tava penteando os meus cabelos com e dedo, e tudo isso enquanto eu reclamava pra mim mesma do quão injusto isso era, por que, eu sabia que ele não era daquele jeito. Eu sabia que ele não era daquele jeito nem de longe, no escuro e olhando com os olhos semicerrados. Mas, nós éramos amigos, eu mentalizei isso até acordar com a respiração dele no meu ouvido, então eu me virei e ele tinha dormido, e assim que ele sentiu que eu me mexi, ele riu, me abraçou, mesmo que sem explicação, me encaixou direitinho entre ele, me embolou naquela coberta, e a gente só esperou o céu atingir sua cor uniforme. Ele colocou tudo de volta no carro, e a gente voltou pra casa rindo e conversando, quando eu cheguei minha mãe nem tinha acordado, e então a gente ficou no sofá assistindo desenho animado. Pensei em comentar sobre a música, mas, ele não se sente muito confortável sobre isso e eu tinha que respeitar, por mais que ele cantasse bem pra caralho.
- Preciso pintar a unha. – refleti alto de mais.
- E eu preciso fazer a barba. – ele riu.
- Deixa eu fazer pra você? Por favor, eu sou mestre nisso.
- Não, só namoradas fazem a barba, isso é o que meu pai diz, por que, a minha barba, só quem faz sou eu.
- Eu não queria mesmo, tomara que você corte a cara toda.
- Nossa, te desejo a mesma sorte com sua unha. – E então em três segundos nós já estávamos nos empurrando e implicando um com o outro. Minha mãe acordou e fez umas panquecas pra gente, o Justin passou o resto do dia lá, decidimos que ele faria minha unha e eu a barba dele, mas, que isso ficaria em segredo pra sempre, e foi bem divertido ver a cara de desespero dele quando eu segurei o barbeador. Umas 19 horas a campainha tocou, eu não estava esperando ninguém, então, pedi pro Justin abrir enquanto eu ia guardar os esmaltes que ele deixou espalhado. Meu desespero começou quando ouvi o Justin falando um “e ai” seco e minha mãe falando um “oi Felipe”. PUTA QUE PARIU, O FELIPE TINHA CHEGADO DE VIAGEM, VEIO NA MINHA CASA E O JUSTIN TINHA ABERTO A PORTA, E POR ACASO, ELE NÃO ERA MAIS O QUERIDINHO DA MINHA MÃE, CLARO QUE IA SOBRAR PRA ESCOLHIDA AQUI. Ele não podia ficar bravo comigo né? Desci o mais rápido que eu pude e tentei ser o mais legal possível pra contornar a situação.
- Felipe! – Corri na direção dele e o abracei, ele até estranhou, mas, ele ia achar mais estranho ainda quando eu dissesse que o Justin era meu amigo agora.
- É, você tem alguma coisa pra me falar?
- Tenho, muitas, mas, tenho certeza que você tem mais, então, como foi o acampamento?
- To indo nessa, se cuida Ma, e, foi um prazer revê-lo, Felipe. – Justin falou do jeito mais filho da puta que ele podia ter conseguido e foi embora, e quando eu olhei pra ele, com aquela cara de “que que eu faço?” vi uma luz, tipo de celular, e uns segundos depois, recebi uma mensagem que dizia babacamente “Agora que seu namorado chegou, tu não precisa mais de mim, boa sorte ai, e desculpa se eu causei alguma briguinha, afinal de contas, hoje é domingo, vou ter que explicar pra Selena por que não atendi ela o dia todo. Com certeza nós dois precisamos nos explicar. Tchau Ma.” O que? Ele também tava bravinho? Agora eu ia ter que lidar com duas caras de cu? Qual o problema desses garotos? E enquanto eu tava xingando e me rebelando contra o sexo masculino, fui interrompida com a única pergunta que eu não queria responder.
- O que esse cara tava fazendo aqui?
- Ah, a gente se encontrou no feriado, em um restaurante, ai, meio que, é, ficamos amigos.
- Sempre soube que era verdade.
- O que?
- Que quando os gatos saem os ratos fazem a festa. – Ele riu, mas, tava bravo ainda.
- Ele não é o que parece, e é uma merda ter que admitir isso, mas, ele pode ser bem legal.
- Ma, é o Justin, ele nunca vai ser legal.
- Mas, eu juro que ele é.
- Tudo bem, não vou discutir, você vai ver. – Eu queria dar um soco no Felipe e pedir pra ele ir embora, de verdade, não gostei do jeito que ele falou do Justin. Ele não conhecia ele, ele nem ao menos sabia a história dele, mas, tudo bem, semanas atrás a preconceituosa era eu. O Felipe entrou, jantou com a gente, depois fui na casa dele dar um alô pros pais dele e finalmente voltei pra casa, pro meu quarto. Eu queria ligar pro Justin explicar as coisas, mas, não tinha nada pra explicar. E também queria ligar pro Felipe e concertar tudo, mas, não tinha nada quebrado pra ser concertado. Era só eu, mais uma vez, confusa e sem saber o que fazer. Eu tomei um banho gelado e fui dormir, pelo visto, tudo que é bom dura pouco.



