domingo, 5 de maio de 2013

Com você eu consigo voar - Cap. 17

Eu achei que não fosse dormir, mas, a prova evidente de que era só amizade era exatamente essa, tive a melhor noite de sono da minha vida. Dormi que nem uma criança, não tive sonhos, não acordei de noite, só deitei e acordei pela manhã, ou pelo menos eu achava que tava de manhã. Meu celular apitou um barulho de mensagem, eu normalmente não olharia, mas, pela primeira vez fiquei curiosa mesmo que ainda sonolenta. Era do Justin, e ele pediu pra eu olhar pela janela, por mais que parecesse ridículo, eu olhei. Ele tava lá em baixo treinando algum discurso sobre coisas que ele não gostava, pelo menos isso eu pude ouvir. Abri a janela, sentei na beirada, coloquei os pés no telhado e me apoiei na sacada. Ele tava com um papel na mão e tinha umas flores também.
- Essas flores são pra mim?
- É, ah, amm, não. Claro que não, eu só achei elas aqui no chão e resolvi pegar, mas, já vou devolver. – E ele as jogou pra trás num ato de “sumam”.
- Entendi, e são 4 horas da manhã, posso saber a que devo a ilustre presença? Por que amanhã é domingo, o último dia do feriado, e qualquer pessoa normal estaria dormindo.
- Na verdade, hoje já é domingo, o último dia do feriado, e por pura sorte, é o dia que acontece alguma coisa com os planetas, eu ouvi no jornal, mas, não entendi. E essa coisa super legal vai nos proporcionar o nascer do sol mais bonito que você já pode ter visto, então, vamos?
- Eu to de pijama, meu cabelo ta parecendo uma juba, eu não vou descer, e mesmo se eu fosse descer, não ficaria pronta em menos de 30 minutos.
- Ma, tu já olhou pra minha roupa? – Ele também tava de pijama. – É pra ser engraçado, por favor, vem logo.
- Só por que tu pediu por favor. – Desci bem rapidinho, de pantufa mesmo, por que pra quem já ta molhado um pingo é besteira.
- Esse papel é pra você, é uma lista de tudo que eu gosto e que eu não gosto.
- E pra que me serve isso?
- Pra você nunca me dar um queijo por exemplo.
- Ah, poxa Justin, to muito frustrada, comprei um queijo ontem pra você! – Ri até a vizinhança reclamar.
- Sempre tão cômica.
- Desculpa se eu ainda consigo ter bom humor de manhã.
- Ainda ta de noite, só fica de manhã depois que o sol chega.
- Desculpa garota do tempo, eu não queria ferir seus conhecimentos.
- Não estraga o momento ta Ma?
- Ele me colocou no carro e saiu dirigindo que nem um louco, extremamente rápido, eu quase não conseguia ver a paisagem, só vultos. Pedi umas mil vezes pra ele ir com mais calma, mas, ele só ria e acelerava. Tudo bem, se eu morresse minha mãe ia matar ele, já seria uma ótima vingança. Pela quantidade de vultos verdes a gente devia estar na Amazônia, mas, não questionei. Ele foi desacelerando, até que a gente tava em cima de uma espécie de morro enorme, que nos proporcionava a melhor visão do céu que poderia haver no mundo.
- Bem vinda a minha terceira casa. Eu geralmente venho aqui pra escrever mús… Quer dizer, escrever coisas, pensar, e ver o sol nascer.
- É lindo, lindo pra caralho. – Ele voltou no carro, pegou um edredom, uma garrafa térmica, duas xícaras grandes e um cobertor fininho. Com o edredom ele forrou o chão, daí nós sentamos em cima, ele meio que cobriu nós dois com a cobertinha de criança dele e colocou um café bem quentinho na minha xícara de borboleta. Eu não gostava de café, mas, confesso que aquele era bom, não sei por que, mas, era.
- Três, dois, um e voilá. – O céu começou a mudar de cor, com uma mistura de roxo,  vermelho, laranja e amarelo. Juro que pude ver uns tons de verde também. Depois ficou rosa com um laranja enferrujado, daí pude ouvir um barulhinho tipo de panela quente na água, e quando eu menos esperei, o sol tava chegando. Eu olhei pro Justin e ele tava hipnotizado, não piscava, não se mexia e posso afirmar que nem pensava. Ele só ria, olhava pro sol e ria pro nada. Aquela luz o favoreceu, preciso dizer, ele nunca foi tão bonito. Enquanto eu o elogiava em pensamentos e o olhava ignorando totalmente a presença do sol, ele me olhou, se virou pra mim, comentou sobre o fato da minha boca estar roxa devido ao frio, pegou meu rosto em suas mãos como se eu fosse de pelúcia, deu um beijo na pontinha do meu nariz, e disse que eu fico linda a luz do sol. Eu não tava apaixonada, afinal de contas, amigos também assistem o sol nascer juntos, e riem juntos, e ficam juntos. Não tinha o menor problema, e eu acho que repeti isso por uns cinco minutos até que eu mesma pudesse acreditar. Ele ficou me olhando, rindo e me olhando.
- É, de fato, a coisa mais linda que eu já vi. – E eu juro que queria estar falando do sol, com todo o meu coração, eu juro que queria.
- Concordo, plenamente. – Ele comentou sem tirar os olhos dos meus. – Amigos, ele riu e repetiu.
- Sem dúvidas, amigos. – Apoiei a cabeça no ombro dele e quando eu vi, já estávamos deitados e rindo, contando piadas, fazendo cócegas, perturbando um ao outro e a melhor parte de tudo, felizes de estarmos ali. Por que, pelo menos eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo, e minha cabeça podia me condenar por isso, ela estaria certa, mas, eu simplesmente não queria.
- “So then I took my turn, oh what a thing to’ve done, and it was all yellow” – Eu tava mesmo de olhos fechados, mas, eu não tava dormindo, e ele tava cantando yellow, e tava cantando meio que sussurrando, com a voz mais linda do mundo, e tava penteando os meus cabelos com e dedo, e tudo isso enquanto eu reclamava pra mim mesma do quão injusto isso era, por que, eu sabia que ele não era daquele jeito. Eu sabia que ele não era daquele jeito nem de longe, no escuro e olhando com os olhos semicerrados. Mas, nós éramos amigos, eu mentalizei isso até acordar com a respiração dele no meu ouvido, então eu me virei e ele tinha dormido, e assim que ele sentiu que eu me mexi, ele riu, me abraçou, mesmo que sem explicação, me encaixou direitinho entre ele, me embolou naquela coberta, e a gente só esperou o céu atingir sua cor uniforme. Ele colocou tudo de volta no carro, e a gente voltou pra casa rindo e conversando, quando eu cheguei minha mãe nem tinha acordado, e então a gente ficou no sofá assistindo desenho animado. Pensei em comentar sobre a música, mas, ele não se sente muito confortável sobre isso e eu tinha que respeitar, por mais que ele cantasse bem pra caralho.
- Preciso pintar a unha. – refleti alto de mais.
- E eu preciso fazer a barba. – ele riu.
- Deixa eu fazer pra você? Por favor, eu sou mestre nisso.
- Não, só namoradas fazem a barba, isso é o que meu pai diz, por que, a minha barba, só quem faz sou eu.
- Eu não queria mesmo, tomara que você corte a cara toda.
- Nossa, te desejo a mesma sorte com sua unha. – E então em três segundos nós já estávamos nos empurrando e implicando um com o outro. Minha mãe acordou e fez umas panquecas pra gente, o Justin passou o resto do dia lá, decidimos que ele faria minha unha e eu a barba dele, mas, que isso ficaria em segredo pra sempre, e foi bem divertido ver a cara de desespero dele quando eu segurei o barbeador. Umas 19 horas a campainha tocou, eu não estava esperando ninguém, então, pedi pro Justin abrir enquanto eu ia guardar os esmaltes que ele deixou espalhado. Meu desespero começou quando ouvi o Justin falando um “e ai” seco e minha mãe falando um “oi Felipe”. PUTA QUE PARIU, O FELIPE TINHA CHEGADO DE VIAGEM, VEIO NA MINHA CASA E O JUSTIN TINHA ABERTO A PORTA, E POR ACASO, ELE NÃO ERA MAIS O QUERIDINHO DA MINHA MÃE, CLARO QUE IA SOBRAR PRA ESCOLHIDA AQUI. Ele não podia ficar bravo comigo né? Desci o mais rápido que eu pude e tentei ser o mais legal possível pra contornar a situação.
- Felipe! – Corri na direção dele e o abracei, ele até estranhou, mas, ele ia achar mais estranho ainda quando eu dissesse que o Justin era meu amigo agora.
- É, você tem alguma coisa pra me falar?
- Tenho, muitas, mas, tenho certeza que você tem mais, então, como foi o acampamento?
- To indo nessa, se cuida Ma, e, foi um prazer revê-lo, Felipe. – Justin falou do jeito mais filho da puta que ele podia ter conseguido e foi embora, e quando eu olhei pra ele, com aquela cara de “que que eu faço?” vi uma luz, tipo de celular, e uns segundos depois, recebi uma mensagem que dizia babacamente “Agora que seu namorado chegou, tu não precisa mais de mim, boa sorte ai, e desculpa se eu causei alguma briguinha, afinal de contas, hoje é domingo, vou ter que explicar pra Selena por que não atendi ela o dia todo. Com certeza nós dois precisamos nos explicar. Tchau Ma.” O que? Ele também tava bravinho? Agora eu ia ter que lidar com duas caras de cu? Qual o problema desses garotos? E enquanto eu tava xingando e me rebelando contra o sexo masculino, fui interrompida com a única pergunta que eu não queria responder.
- O que esse cara tava fazendo aqui?
- Ah, a gente se encontrou no feriado, em um restaurante, ai, meio que, é, ficamos amigos.
- Sempre soube que era verdade.
- O que?
- Que quando os gatos saem os ratos fazem a festa. – Ele riu, mas, tava bravo ainda.
- Ele não é o que parece, e é uma merda ter que admitir isso, mas, ele pode ser bem legal.
- Ma, é o Justin, ele nunca vai ser legal.
- Mas, eu juro que ele é.
- Tudo bem, não vou discutir, você vai ver. – Eu queria dar um soco no Felipe e pedir pra ele ir embora, de verdade, não gostei do jeito que ele falou do Justin. Ele não conhecia ele, ele nem ao menos sabia a história dele, mas, tudo bem, semanas atrás a preconceituosa era eu. O Felipe entrou, jantou com a gente, depois fui na casa dele dar um alô pros pais dele e finalmente voltei pra casa, pro meu quarto. Eu queria ligar pro Justin explicar as coisas, mas, não tinha nada pra explicar. E também queria ligar pro Felipe e concertar tudo, mas, não tinha nada quebrado pra ser concertado. Era só eu, mais uma vez, confusa e sem saber o que fazer. Eu tomei um banho gelado e fui dormir, pelo visto, tudo que é bom dura pouco.

Com você eu consigo voar - Cap. 16

O Justin foi pra casa dele e eu pro banheiro da minha mãe, por que lá tinha uma banheira e eu precisava relaxar o suficiente pra não ter um colapso nervoso. O Justin não me deixa nervosa, mas, o melhor jeito de não se ferrar é ter tudo sobre controle, e ele é tão imprevisível que a única coisa que me diz é o que vestir… Que tipo de menino te deixa aflita desse jeito? E nessa hora o meu subconsciente grita: “PORRA MARIA ALICE, A GENTE COMBINOU QUE TU NÃO IA GOSTAR DELE, QUER ME FODER ME BEIJA”. Mas, eu não gosto dele, quem disse que eu gosto? To determinada, só vamos ser amigos, amigos também saem à noite. Coloquei aquelas coisas cheirosinhas na banheira, esperei ela ficar bem cheia e com espumas e entrei, juro que quase liguei pro Justin desmarcando nossa saída, por que, na boa, aquele era o melhor lugar do mundo. Depois de quase uma hora criando coragem pra sair do banho, me enrolei num roupão, prendi uma toalha no meu cabelo e fui decidir o que vestir. Coloquei um vestido bege que era um pouco rodado na saia, acrescentei um cinto de ferro dourado, uma sapatilha no estilo do vestido, um casaquinho, peguei uma bolsa de mão, fiz uma maquiagem bem rápida por que eu não tenho saco pra essas coisinhas e, tcharan, eu tava pronta. Minha mãe ainda não tinha chegado, deixei um bilhete na geladeira avisando que tinha saído com o Justin e que qualquer coisa ela podia me ligar. Assim que eu acabei o bilhete a campainha tocou, era ele, e foi bonitinho olhar pelo olho mágico e o ver treinando um sorriso.
- To interrompendo alguma coisa?
- É, oi Ma. Achei que tu fosse demorar um pouco pra abrir a porta, mas, isso não vem ao caso. Você ta bonitinha.
- Bonitinha? 110%, isso não é coisa que se fale.
- Você ta linda! – Ele riu, mas, sem querer me gabar, tinha sinceridade na voz dele.
- Aonde vamos?
- Surpresa, eu já disse. – Entramos no carro, ele tava ouvindo Oasis, deixei, era uma boa música. Ele dirigiu até o centro da cidade e parou numa praça em frente a um hospital, não entendi.
- Aqui foi onde eu nasci, e algum tempo depois, onde minha mãe morreu. Aquele restaurante ali, virando a esquina, foi o primeiro lugar que eu me lembro de ter jantado com ela. Foi num aniversário, e ela tava bem feliz. E aquela galeria de frente pro restaurante, é dela, mas, ta fechada a uns anos, e lá dentro tem os quadros favoritos dela, e um deles nós dois pintamos juntos, por isso não gosto de desenhar. E nessa praça, meu pai pediu minha mãe em casamento, assim que ela saiu do hospital e descobriu que tava grávida de mim. Pronta para o próximo lugar? – Queria fazer um comentário de tudo aquilo que eu tinha acabado de ver e ouvir, mas, guardei, ainda tinham dois lugares.
- Pronta. – Entramos no carro e fomos até uma casinha, simples, mas, linda. Era pequena, com um quintal imenso e uma árvore gigante, que tinha aquelas casinhas de criança.
- Eu morava aqui. Quando meus pais se casaram eles não tinham muito dinheiro, os pais da minha mãe não gostavam muito do meu pai, então, os dois venderam tudo que tinham e compraram esse espaço, com muita vontade eles construíram essa casa, eles mesmo. E, essa árvore, é a árvore da qual eu te falei. Com o passar do tempo meu pai começou a trabalhar e hoje em dia ele é o dono da empresa que ele trabalhava de motorista, o que o deixa totalmente sem tempo pra nada, inclusive família. Essa é a história de onde eu cresci, e, agora vou te levar no meu lugar favorito, que é aonde eu mais vou agora que já sou grande. – Ele falou rindo e ironicamente.
- Você não é grande. – Brinquei.
- Você não pode dizer isso ainda. – sarcasmo e humor negro, suas especialidades.
- Ah, com certeza eu posso.
- Então acho que já posso te surpreender. – Ele gargalhou.
- Ou pode tentar né.
- Próximo e último lugar? – Assenti com a cabeça e fui em direção ao carro. Nós estávamos meio que voltando pra casa, se eu não me engano era o mesmo caminho que fizemos na ida. Paramos em frente aquele bar, pub ou sei lá o que aquilo era. Tava vazio, devia ter umas oito pessoas, mas, era o melhor ambiente em que eu já havia ido.
- Que lugar mais aconchegante, sério, parece que eu to no meu quarto.
- Mas esse já é o MEU lugar favorito.
- Se eu posso dividir minha mãe, você pode dividir seu lugar, certo?
- Você ainda vai ter que me convencer 100% de que merece ele. – Ele riu por uns minutos e então escolheu uma mesa pra gente sentar.
- Então agora o jogo ta virando?
- Digamos que eu esteja por cima.
- Você sabe que não vai durar muito tempo então, né? – rimos.
- Você bebe?
- Não.
- Oi, dois sucos de laranja.
- Vai cantar hoje? – O garçom perguntou, e ele olhou com uma cara de desespero tipo “finge-que-não-foi-comigo-e-vaza-cara”
- Não, só os sucos mesmo.
- E desde quando você não quer whisky?
- Com gelo e açúcar ta? – Ele olhou com uma cara de quem ia fazer o cara engolir uma cadeira se ele não parasse de falar e saísse dali.
- Você canta?
- Esse cara é louco, sério, nem conheço ele. – Então a gente riu, conversou, e, pelo menos uma vez na vida, não brigamos.
- Os dois sucos.
- Valeu Dudu.
- Então você não conhece ele? – perguntei do jeito mais irônico e engraçado.
- Ta bom esse suco né? – a gente, riu, tudo bem, ele não queria falar daquilo.
- Ta maravilhoso, obrigada.
- Pelo que? É só um suco.
- Não, por isso, sabe? Você ta sendo legal comigo, me falando coisas que eu sei que não são fáceis pra ti, tentando me convencer de que você não é algo que eu julgo ser, perdendo seus dias entrando nas minhas confusões, aguentando minhas grosserias… Obrigada.
- Se isso foi uma bandeira branca, ok, minha vez. Obrigada também, por me deixar conhecer uma Maria Alice que pode suportar um Justin, vou tentar não te traumatizar.
- Amigos. – Estendi a mão.
- Amigos. – Ele a apertou.
- Só não me decepciona ta?
- Só não me decepciona você, ta?
- Combinado. – apertamos as mãos de novo.
Foi uma noite cheia, mas, reveladora. Eu me surpreendi, não comentei, mas, foi a melhor surpresa que eu podia ter. Nos fundos do bar tinha um jogo de dardos, e nós competimos a noite toda, por que sem uma rixa entre Ma e Justin eles não existem né? Sem intenção olhei no relógio e CARALHO SÃO DUAS HORAS DA MANHÃ!
- Justin, são duas horas, acho melhor a gente ir.
- Sua mãe ligou?
- Não, e ela não fez isso por que sabe que eu to com você, e minha mãe é uma tramadora de planinhos. – ri.
- E ta dando certo?
- O que?
- O plano dela? – Fiquei vermelha, senti minha cara pegando fogo, eu tentei falar, umas cinco vezes, mas, minha voz tava perdida em algum lugar da minha garganta, então abaixei a cabeça meio que rindo e sem saber o que fazer. Ele me puxou pela mão, me levou até o lado de fora, e do lado do bar tinha tipo um laguinho com uma ponte, ele me levou até lá, sem dizer nenhuma palavra. A gente observou as estrelas por um minuto, ele não soltou minha mão, e lá fora tava frio pra caramba, o que me fez estremecer. Ele tava sem casaco, então, me abraçou. Não recuei, o cheiro dele me prendeu. Ele segurou meu queixo e me deu um beijo. Eu queria bater, empurrar, jogar ele daquela ponte, mas, por impulso, segurei o rosto dele e não consegui o mover dali. Ele riu, o que me fez rir também, então ele beijou minha bochecha e, sem me soltar, olhou pro céu.
- Ta vendo aquela estrela? A que mais brilha?
- Tô.
- É a minha mãe, e eu aposto que você também acha que é o seu avô, então, posso garantir que são os dois juntos, olhando pra gente.
- Dessa vez preciso concordar, você ta completamente certo. – Aleluia eu tinha conseguido falar alguma coisa.
- Ma, eu não quero que isso atrapalhe nossa amizade ta? Se tu tiver ficado brava, desculpa.
- Foi só um beijo, calma, só paixão estraga amizades, e você ia ter que passar o resto da sua vida me beijando pra eu, talvez um dia, me apaixonar. – Rimos e nos empurramos, mas, depois voltamos a mesma posição.
- É bom ter você por perto.
- Não é tão ruim te ter também, até por que ta frio pra caralho.
- Vou aceitar como um elogio.
- E aproveita, por que eu não faço muitos. – Rimos mais, implicamos um com o outro, contamos coisas um pro outro, falamos sobre passado, presente e futuro. Combinamos de que aquela noite tinha sido incrível e que um beijo não estragaria uma semana, até fizemos piadas, e isso tirou um peso enorme das minhas costas. Ele me levou em casa, me deixou na porta, me deu um beijo na testa, então alguns segundos depois minha mãe abriu a porta, deu um oi pra ele e ele sussurrou no meu ouvido “conta pra ela que o plano funcionou” e eu dei um soco no braço dele, ele foi embora rindo, e eu preciso confessar, fui dormir do mesmo jeito.

sábado, 4 de maio de 2013

Com você eu consigo voar- Cap. 15

Depois do lanche ele e minha mãe ficaram conversando sobre mil e um assuntos e, por mais que eu tenha implicado e reclamado, foi bom que eles tenham dado certo. Minha mãe conversou com ele sobre a mãe dele também, e quando eu mais achei que fosse ser embaraçoso, foi essencial. Ele ficou fazendo elogios, minha mãe colocou a torta num potinho e ele foi todo feliz. Me deu um beijo na testa, tá que ele era alto, mas, foi estranho. O dia tinha sido um tanto quanto agradável, eu preciso admitir. Ele e o Felipe são opostos, mas, é possível gostar do frio e do calor ao mesmo tempo, certo?
- Ele parece ser um cara legal Ma e, agora falando sério, ele é bem bonitinho.
- Não mãe, sem chances, se um dia a gente vier a ser alguma coisa, essa coisa vai se chamar “amigos”.
- Ta certo! Não vou insistir né? Afinal de contas, eu só tenho mais que o dobro da sua idade, não vivi nada ainda. – Ela riu.
- Mas, é sério mãe, eu to nessa cidade a pouco tempo, por enquanto, eu só quero amigos. Mas, obrigada por ter falado com ele hoje, isso me deixou preocupada mais cedo.
- Ele é meio fechado, mas, ao mesmo tempo, um livro aberto.
- O nome disso é Justin, todos são assim.
- Ainda achando que personalidades são vinculadas a nomes?
- A nomes não, mas, quando se trata de um Justin, pode ter certeza, não muda.
- Você ainda vai se surpreender, se é que você vai mesmo casar com um.
- Me surpreender é o único jeito de eu casar com um! – Rimos, conversamos mais, implicamos uma com a outra, comemos, tomamos banho, vimos filme e dormimos. Minha mãe podia ter todos os defeitos do mundo, mas, ainda era minha melhor amiga. Nada no mundo é perfeito, então tive que acordar com o telefone tocando.
- Oi.
- Bom dia Boa, quer dizer, princesa, quer dizer, Ma HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- É engano, tchau. – Desliguei, porém, insistência passou a ser um defeito 9 horas da manhã num dia sem aula.
- Você desligou na minha cara?
- Não, eu disse tchau.
- Bom dia pra você também, vem aqui na frente, eu trouxe sua vasilha.
- Traz depois das 14hs, tchau.
- Eu já to aqui na frente, vem logo Ma!
- Ai, que saco você, me acorda e ainda me explora, espera. – Calcei a primeira coisa que tinha na minha frente, escovei os dentes ainda de olho fechado e fui, que saco!
- Você fica tão linda de camisola e pantufa… – PUTA MERDA, QUAL ERA O MEU PROBLEMA DE PENSAR DE MANHÃ? Fiquei em choque por dentro, mas, tentei ser tranquila por fora.
- Você me acorda, me faz vir aqui em baixo, me obriga a te ver de manhã e ainda espera que eu esteja linda?
- Eu não disse que você ta feia – ele riu. Arrumou meu cabelo e isso parecia uma mania, tirou o casaco dele e me deu, por que minha roupa realmente não era apropriada ao clima, e me devolveu a vasilha, só que cheia.
- Ué, não comeu a torta?
- É que não é educado devolver uma vasilha que tu pegou cheia vazia.
- Então tu decidiu ser educado?
- Pois é, gosto de ter metas, e agora preciso vencer os 60%
- Agora tu só precisa de 50%, deixando claro que é por que o bolo aqui é de chocolate, e ta muito bom, tu que fez?
- Também não é pra tanto né? – ele riu meio sem graça – Mas, foi eu que mandei comprar, serve?
- Quase! –rimos.
- Cadê nossa mãe?
- A MINHA mãe saiu hoje cedo, por que?
- Só queria dar um beijo nela, e agradecer.
- Com ela tu não precisa vencer nenhuma porcentagem viu? Ela já gosta de ti de graça.
- Todos gostam!
- Acho que não em…
- Claro, você é do contra.
- Se você prefere pensar assim… – soltei um sorriso e me virei pra ir pra casa, ele veio atrás, tudo bem, a parte de que até a companhia dele me irritava eu já tinha superado.
- Quer sair hoje à noite?
- Pra onde?
- Quero te levar em três lugares, mas, são próximos uns dos outros, então, não vou precisar de tanto tempo pra recuperar o fôlego – ele riu da própria piada.
- Posso saber que lugares?
- É surpresa, mas, acho que você vai gostar. Você precisa me conhecer pra ter algum motivo pra não gostar de mim, só faltam três dias pro feriado acabar, então, hoje vamos fazer um tour.
- Combinado, mas, o seu lado “garota do tempo” pode me dizer o que vai acontecer pra eu escolher uma roupa?
- Vai chover a tarde toda, mas, de noite o céu vai estar estrelado.
- Muito obrigada! – Falei com ironia. Terminei de comer o bolo, ele disse que tava com fome, daí fiz uma comida bem simples e rápida pra gente comer, eu ainda queria assistir um filme antes de sair, por que, de fato, o feriado tava acabando.
- Isso ta bom pra caralho!
- Sério?
- Mas não se gabe, aposto que foi sua mãe que te ensinou.
- Foi mesmo – rimos um riso gostoso de ouvir e, pela primeira vez, me senti em casa.
- A gente pode assistir um filme antes de se arrumar pra sair?
- Depende do filme.
- Barbie quebra nozes, por favor!
- Sério?
- Claro que não HAHAHAHAHAHAHA
- Opa, tu ta engraçadona hoje né?
- Aprendi com o melhor!
- Ai que linda você, agora pode colocar um filme pelo qual eu me apaixone nos primeiros três minutos, se não, a gente vai ver futebol. – coloquei “a fera”, ele percebeu a indireta do filme, mas, fez piada de tudo, e assistiu até o final, o que me surpreendeu.
- Gostei do filme, mas, se era pra eu me encaixar, desculpa, sou muito mais lindo que esse cara.
- Tu é tão iludido como ele.
- Mas, no final, a garota se apaixona.
- Verdade, aquela sua namorada que parece um poste pode se apaixonar por você, olha que legal.
- A Selena? Não, ela é só o meu domingo à noite.
- Como assim?
- Aquilo que a gente quer quando não tem nada pra fazer.
- Hm, interessante seu jeito, acabou de passar pra 60% de novo.
- To sendo verdadeiro, eu deveria estar com 30%
- Você tem três lugares pra me levar hoje, 20% pra cada um deles, me surpreenda.
- Eu vou, pode ter certeza.
- Só que é meio difícil me surpreender, assim, sem querer ser chata.
- “Sem querer ser chata”… Como se você conseguisse.
- Setenta porc…
- Ta, desculpa, retiro o que eu disse.
- Que lindinho, to gostando de ver!
- Vai tomar no cu.
- Eu não, que nojo. Falar em tomar, vou tomar um banho, por que eu posso ser diferente das outras meninas, mas, no quesito me arrumar, sou igual a todas elas.
- Quer ajuda?
- Calça, saia ou vestido?
- Vestido, mas, leva casaco.
- Mais alguma recomendação senhor Justin?
- Seja boazinha!
- Eu sempre sou.
- Sempre é má.
- Seja menos Justin e eu serei menos Maria Alice ok?
- É um péssimo acordo pra quem quer recomeçar. Seja completamente você, e eu vou fazer da mesma forma. Ou você vai embora nos primeiro minutos, ou vamos ter uma boa noite. – Assenti com a cabeça, não disse nada, mas, no fundo, desejei que fosse ser uma boa noite

Com você eu consigo voar - Cap. 14



Eu olhei, esfreguei os olhos, pisquei, mas, era mesmo verdade.
- Posso interromper as garotinhas?
- Qual é Ma, to adorando conhecer sua mãe, quer dizer, nossa, por que eu já me ofereci pra ela me adotar. – Ele riu um riso tão sarcástico que, por um minuto, olhei com muito apreço pro jogo de facões da minha mãe e pensei no desenho lindo que eu podia esculpir na cara desse oferecido.
- Vaza garoto, minha mãe, minha casa, e por falar em propriedades, tu ta sentado na minha cadeira.
- Boa, isso são modos de tratar o menino? Rapaz bonito, gentil…
- Então quer dizer que seu apelido é Boa? – O Justin tava pedindo pra gente fazer um número mágico imitando aqueles caras que engolem espadas.
- É que eu acho Ma muito feio sabe Justin? Atrai coisas ruins, ai prefiro chamar minha princesa de Boa.
- Ah, princesa, sempre soube que você tinha algo bom, mesmo que fosse o apelido. – Aquele olharzinho, ia ter troco, isso ele podia apostar.
- Então, eu vou lá pra fora, tchau.
- Calma filha, eu fiz lanche!
- Da pro seu novo melhor amigo ai, quer dizer, filho né.
- Boa, não fala assim. Pode ir lá pro jardim que eu levo. – Minha mãe sendo gentil, o Justin deve ter usado alguma tática de hipnose, por que não tem explicação. Sentei na grama e fiquei assoprando uns dentes de leão que estavam por perto, eles me davam aquela esperança boba de fazer um pedido. No primeiro dia que encontrei essas florzinhas diferentes eu pedi minha vida de volta, mas, agora, eu só queria que aquela mudança valesse a pena. Então, no meu maior momento de reflexão, surge uma bola na minha cabeça.
- QUE PORRA É ESSA?
- Desculpa Boa, é que eu sou muito bom de bola. – Ele riu até perder o fôlego, o que não era muito difícil.
- Você gosta de rir Justin?
- Gosto, por quê?
- Por que se você não parar de ser tão engraçado vou ser obrigada a arrancar todos os seus dentes, e creio eu que rir sem dentes não fica muito bonito.
- Cala a boca! Eu sou lindo de qualquer jeito.
- Claro que é, ai você acorda e percebe que não.
- Calma Boa, não precisa ficar com ciúmes da nossa mãe, você ainda é a princesinha da casa HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- Ou, deixa eu dar um chute na sua cara? Só pra fazer um teste? Se dor você me avisa que eu prometo que não chuto de novo! Me chama de boa mais vez que eu…
- Boa! – Fui tentar dar um empurrão nele, mas, nós dois caímos por que meu nome é Maria Alice desastre, não podia ser diferente. Confesso que quem viu a cena de fora deve ter visto duas crianças se atracando pra decidir que ganhou no videogame, mas, não era bem isso que tava acontecendo. Ele me prendeu com força contra a grama, isso pra não falar contra ele. Prendeu minhas pernas com as pernas dele e segurou meus braços de um jeito que me senti um gatinho lutando com um leão, babaca.
- Me solta.
- Admite que sou um ótimo amigo, se não eu não solto.
- Você não é meu amigo. – Então ele chegou muito perto do meu rosto, eu conseguia sentir o coração dele batendo e a respiração dele me fazia cócegas.
- Admite. – entrei no jogo dele, cheguei mais perto, ao ponto de praticamente não haver distância entre os nossos rostos, então ele afrouxou minha mão, bem coisa de perdedor. Coloquei ele entre mim e a grama, ninguém me vencia numa lutinha.
- Você nunca ia ganhar de mim. – Dei um soco de leve no queixo dele – Você ainda tem muito o que aprender, garotinho.
- Eu te deixei ganhar.
- Eu finjo que acredito.
- RÃRÃÃÃÃÃÃÃÃÃM
- Oi, é, mãe.
- E os modos minha filha? E os modos?
- Eu só tava ensinando pra ele que ninguém perde pra mim numa lutinha.
- Isso é verdade Justin, a Ma nunca perde.
- Ah tia, eu que deixei ela ganhar.
- Aham, acredito! – Pelo menos minha mãe ficou do meu lado né – Fiz uma torta salgada e tem suco lá dentro, vocês vêm comer? – o Justin nem deixou ela terminar de falar, já saiu correndo igual a um desesperado, e quando chegou na porta ficou parecendo aqueles ratinhos guiados pelo cheiro do queijo, foi engraçado.
- Minha mãe conquista todo mundo pela boca, cuidado.
- Ela já me conquistou, aliás, já me adotou.
- Aham, claro. Isso tudo é vontade de entrar pra família?
- Não me enche, coloca pra mim, essa torta ta com uma cara linda.
- Fofo, a empregada morreu queimada ta? Sua mão não vai cair se você se servir.
- Que vingativa.
- Você ainda não viu nada.
- Quer dizer que ainda vou ter chances de ver?
- Você tem o resto do feriado pra me provar que é o oposto do que eu julgo ser, digamos que ainda faltam 60% de mudanças.
- E o que eu ganho com isso?
- Uma estrelinha dourada na tesa – ri – nada, a não ser que amizades passem a ter valor pra você.
- Então quer dizer que agora você é minha amiga?
- 60 %Justin, 60%. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Com você eu consigo voar - Cap. 13

- Que é?
- Desculpa, é só que, eu sinto falta dela sabe? E acho que eu nunca tive um “luto”, não sei reagir, falar, lembrar, não é que nem perder um colega, ela era minha mãe.
- Eu sei como dói perder alguém, mas, tenho certeza que ninguém que vai embora tem a intenção de levar sua vontade de fazer as coisas com ela, inclusive e principalmente sua mãe. Fala dela, chora, briga, fica puto, é assim que passa. – Ele me olhou de um jeito que nunca tinha olhado, bem nos meus olhos, como se fosse me dar um tiro com eles. Observei cada passo, ele voltou pra arvore, colocou as duas mãos nela, e começou a gritar. Ele gritou, gritou muito alto, e a única coisa que eu ouvi foi um “eu sinto sua falta, juro que sinto, e desculpa ter mudado tanto”. E me doeu, bem no fundo doeu, e eu não queria estar ali, por que superar, às vezes, é muito pior do que perder.
- Pronto, é assim que as coisas são, eu grito, converso com uma árvore a anos, e sabe o pior? Nada muda.
- Quando meu avô morreu eu também pensei assim, mas, muda sabe? Por que eu sei que, não importa onde ele esteja, ele me quer bem. Eu preciso seguir sabe? Hoje eu falo dele sorrindo, e é assim que as coisas tem que ser.
- Eu sou forte com bebida, brigas, palavras, mas, chuva me derrota, é só por isso que eu to assim.
- Sei.
- É sério. – Segurei a mão dele o mais forte que eu consegui, fechei os olhos e pedi pra Deus, pedi muito pra que ele parasse de me olhar com aquela cara de quem chora, mas, que não vai chorar por que é machão demais pra isso. Tudo, menos aquela cara.
- Acho que eu vou ficar com pneumonia. – Então ele me puxou pela mão e a gente começou a correr, nossos cachorros ficaram brincando e correndo com a gente, foi engraçado até quando eu tropecei na coleira de alguém e cai.
- AI CARALHO, MEU JOELHO!
- Ta saindo sangue Ma, puta que pariu, que que eu faço?
- Dar beijinho pra sarar que não vai ser né, me ajuda. – Ele me ajudou a levantar e fui cambaleando até a casa dele. Ele abriu a porta, que não estava trancada por sinal, não tinha ninguém, então eu entrei. Ele subiu as escadas, que eram imensas, correndo e pegou uma caixinha de emergência. Tinha mil coisas que não são emergenciais, porém, ele conseguiu fazer um curativo. Depois me deu uma toalha e uma roupa dele.
- Pra que isso?
- Não quero ninguém com pneumonia.
- Que delicado você!
- Vai se foder, se seca logo que eu vou te levar em casa e falar pra sua mãe que tem um pedaço do seu joelho na rua.
- Que exagero, foi só um cortezinho mínimo. – Ri por que meu joelho tava sangrando pra caralho, e fui pro banheiro da sala tentando não sujar o chão. A porta não tinha chave, que ótimo, parece que nada lá fica trancado. Tirei a roupa, enrolei a toalha no cabelo e me vesti com uma bermuda e uma blusa branca que era gigante. Fiquei parecendo aquelas mulheres de malandro, e já fui pensando em como explicar pra minha mãe por que eu tava vestida com a roupa dele.
- Ficou linda viu!
- Sai, você não faz meu tipo. – A gente riu. Ele me levou até em casa e ficou falando pra minha mãe, que não sei por qual motivo estava lá, o quanto eu sou desastrada. Eles se deram bem ou eu tava ficando louca? 


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Com você eu consigo voar - Cap. 12

Levantei do sofá e fui no quarto da minha mãe, ela ainda tava dormindo, preparei um café da manhã pra ela porque, provavelmente, ela não teria tempo de o fazer. Eu até queria mandar uma mensagem pro Justin agradecendo a gentileza, mas, eu não tinha o número dele e não era minha preferência também. Mandei umas mil mensagens pro Felipe, mas, acho que lá não devia ter sinal, por que ele não respondeu nenhuma. Hoje o dia tava quentinho até, coloquei um short e uma blusa e fui até um lugar no centro da cidade, que eu havia visto da outra vez, que vende cachorrinhos. Eu ainda não tinha me esquecido dos meus cachorros da antiga cidade, mas, eu gostava de ter uma companhia em casa. Apesar de sempre ter tido cachorros grandes, decidi comprar um cachorro pequenininho, desses que a gente pode criar em casa. Ganhei uma coleira de brinde, então, voltei correndo com a chéri, por que ela é extremamente querida e fofinha. Minha mãe brigou, mas, achou ela linda e seria incapaz de me fazer devolvê-la. Como ela ainda era filhote, dormia o dia todo, e claro que eu não fiz diferente. Depois do nosso sono da beleza, meu celular tocou de um número estranho, mas, era daqui e eu atendi.
- Oi?
- Oi Ma, é o Justin
- Ah, oi. – Por que ele tava me ligando?
- Te acordei?
- Me acordou e acordou a chéri também.
- Quem é essa?
- Minha nova cachorra, que é tão linda quanto eu.
- Coitadinha…
- Por quê?
- Ninguém merece parecer com você HAHAHAHAHAHAHA – ele riu como se fosse engraçado, idiota.
- RA RA, então, me ligou só pra ouvir minha voz?
- Na verdade, não, pra te fazer um convite.
- Espero que seja uma boa proposta pra me fazer sair da cama.
- Eu tenho um cachorro, o Spike, o meu único amor, na verdade. Hoje é dia de ir no parque passear, acho que a chéri ia gostar de conhecer o melhor lugar pra cachorro na cidade, topa?
- Sim, mas, que fique bem claro que é só pela chéri.
- Eu finjo que acredito.
- Babaca. Você passa aqui?
- Claro que não, o parque é depois da minha casa, você pode descer até aqui.
- Que cavalheirismo.
- Se você quer um cavalheiro, deveria ter viajado com seu namorado.
- Deveria mesmo.
- Ta bom, Ma, ta bom. To te esperando em cinco minutos ok?
- Vou pensar. – Amarrei o cabelo e fui. O dia tava meio abafado, por incrível que pareça, bem que dizem que depois da tempestade o sol acaba aparecendo. O Justin tava com um casaco… Qual era o problema dele?
- Você vai morrer assado com essa roupa.
- Vai chover hoje.
- Lógico que não vai, olha esse clima!
- Ma, eu moro aqui a bastante tempo, e eu sei quando vai chover.
- Ok garota do tempo.
- Vai se ferrar.
- Então vamos juntos, por que to com pressa. – E saí correndo na frente, o cachorro dele era a coisa mais linda, e tentou acompanhar a gente. Ri da cara dele o percurso todo por que ele perdeu o fôlego nos três primeiros metros, mas, tudo bem, fumantes geralmente não tem uma boa respiração. Depois de ter sido praticamente arrastado pelo Spike, chegamos ao parque. Ele tentou me xingar, mas, tava muito ofegante pra isso. Não tenho culpa se os cachorros me preferem.
- Eu preciso de água.
- Problema de?
- Vai se foder, não tenho mais um pulmão de dezoito anos não.
- Jura? Eu nem percebi quando você começou a morrer nos primeiros metros. – Ri da cara dele, por mais que ele estivesse me beliscando por causa disso.
- Vou comprar alguma coisa pra beber, já volto. – Ele voltou com duas águas trincando de tão geladas, eu quase dei um abraço nele de tanta alegria, mas, também não era pra tanto.
- Obrigada.
- De nada senhorita… To cavalheiro o bastante?
- Babaca o bastante.
- Então, você sempre me julga e me descreve achando que me conhece, não gosto disso. Se é pra me detestar, que você tenha, pelo menos, um motivo. Decidi te trazer aqui pra tu me conhecer, minha ex disse que eu sou apaixonante…
- Ela mentiu pra você Justin, para de ser bobinho.
- Você não da um descanso né?
- Ainda bem que você já sabe.
- Continuando, decidi tirar o feriado pra desmanchar a cara de cu quando tu me olha.
- E quem garante que vai funcionar?
- Ninguém, mas, tentar não custa nada, certo?
- Talvez custe, do jeito que a gente se da bem, eu posso te matar.
- Ta Ma, aham.
- Quero um algodão doce!
- Sinta-se livre e desimpedida pra comprar. – Comprei, e comprei só pra mim. Ele pediu, mas, não dei, sou egoísta mesmo. A gente correu um pouco, ele me mostrou alguns lugares do parque, até que a gente chegou numa árvore imensa.
- Plantei essa árvore com minha mãe, eu era bem pequenininho, mas, lembro como se fosse hoje. Ela me trazia aqui todos os dias pra regar nossa “mudinha”, e depois que ela morreu, eu venho aqui sempre ver se, sei lá, só ver. Te ajudei a plantar aquela árvore por que eu já tenho jeito com árvores, sou quase um jardineiro. – Eu queria falar alguma coisa, mas, não consegui. A mãe dele era um assunto que me deixava vulnerável, sem palavras, eu só queria, sei lá, segurar a mão dele e não soltar, só pra ele ver que não ta tão sozinho quanto acha. Mas, era o Justin, ele sabia que não tava sozinho, por que ele sempre tinha muitos amigos e namoradas pra lembrar. Me contentei.
- É uma árvore bem bonita.
- Ela que escolheu.
- Imagino, tu só tem bom gosto pra querer minha amizade, por que pra namoradas mesmo…
- Você fica fofinha com ciúmes, assim, eu acho.
- Mais fofinha ainda eu fico metendo o pé na sua cara, eu não sinto ciúmes, graças a Deus sou imune a isso.
- Imagino. – Ele falou num tom de ironia.
- Idiota. A gente já pode ir né?
- É por que acho que já vai cho… – E não deu tempo nem de ele completar a frase, o céu desabou sobre a nossa cabeça, ótimo, eu tava de short e ia morrer congelada, e ele tava certo sobre a chuva.
- Corre! – E sem a menor intenção o puxei pra de baixo da árvore que ele tava me mostrando, que era bem grande e cheia, a água não pegava na gente, pelo menos não tanto.
- Ela ficava aqui em baixo quando chovia também, sem medo dos raios e trovões.
- Você devia ser corajoso como ela.
- Aprendi que os corajosos não duram muito… – Ta, eu sei que sou uma burra, mas, abracei ele, eu precisava abraçar.
- Não fica assim, o ouro só fica puro depois que passa pelo fogo, e o diamante bonito quando é feito sobre pressão, é só uma fase. Eu sei que ela quer te ver bem, e eu te detesto, mas, não faz essa cara.
- Me solta Ma, obrigada, mas, essas coisas me dão nostalgia, náuseas, eu não gosto muito de sentimentos.
- Eu solto, pode continuar com esse seu medo de enfrentar as coisas, inclusive a chuva, eu e a chéri estamos indo.
- Pera Ma, volta aqui. – E ele veio correndo e me puxou pelo braço, que saco. 


Com você eu consigo voar- Cap. 11

Cheguei em casa e senti uma vontade absurda de tocar violão, isso só acontecia quando eu tava feliz, mas, preferi pensar que era só falta do que fazer mesmo. Minha mãe me ligou pra avisar que chegaria tarde, pensei em ver filme de terror, mas sou muito cagona pra isso, apesar de ter TV a cabo aqui em casa, não gostei de absolutamente nada do que tinha na TV. Coloquei uma roupa quentinha, por que o frio não dava trégua, e fui numa locadora. É bem no final da rua, depois dos prédios e da última casa, me apressei. Liguei lá pra conferir se tava aberta, por que com minha sorte, era bem capaz de não estar. Descobri que era uma locadora 24 horas, que eficiente. Aluguei “se ela eu danço” 1, 2 e 3. Tava numa promoção e tal, e são os meus favoritos, por que sempre tem aquele filme que a gente não cansa de ver. Comprei uma pipoca de micro-ondas, daquelas com manteiga de cinema, pra que melhor? Fiz um chocolate quente, não era o mesmo sem a Mari, mas, eu tentei. Me esparramei no sofá, achei a melhor posição e quando eu dei play, a campainha tocou.
- JÁ VAI! – Todas as pessoas normais olham primeiro quem é, e depois abrem a porta, depois desse dia eu realmente aprendi a o fazer.
- Oi Ma…
 - Cara, a gente se viu não tem nem trinta minutos, que foi?
- É que eu vi você passando em frente a minha casa correndo, só queria saber se ta tudo bem, sei lá, o carro da sua mãe não ta ai, supus que ela não tava em casa… De qualquer jeito, ta tudo bem?
- Me senti espionada agora – ri desconcertada.
- É que você é mulherzinha demais pra ficar sozinha – Quando ele disse isso fez um barulho MUITO alto de trovão, pela primeira vez vi uma pessoa mudar de cor em segundos. Ele ficou amarelo, parecia que ia desmaiar.
- Tu tem medo de chuva?
- Claro que não, qual o seu problema? Só não curto esses raios, sei lá, parece que vai cair alguma coisa em mim.
- Bom, no momento, a única coisa que pode cair em você é água.
- Por falar em água, me da um copo d’água?
- Já experimentou abrir a boca e virar o rosto pra cima? – Abri a porta e fui em direção à cozinha, ele veio atrás de intrometido que é, e ficou observando minha casa que nem um estranho.
- Legal aqui.
- Também acho, mas, não tem muito a minha cara, é executivo demais.
- Sua mãe que escolheu? – Assenti com a cabeça. Outro trovão, mas, esse veio com um raio que clareou a casa toda, foi muito estranho. O Justin suspirou, meio nervoso, eu ri e ele sabia o por que da minha risada, e riu também.
- Quando eu era pequena tinha medo de raios também, mas, depois meu pai me disse que eles não iam me machucar, acreditei.
- Quando eu era pequeno meu pai viajou e me esqueceu, tava chovendo muito, um raio bateu na árvore que tinha no meu jardim, e ela caiu na direção do meu quarto. Levei uns pontos por causa do vidro que voou longe, e até hoje não sou fã de raios e nem de trovões.
- Como seu pai te esqueceu?
- Geralmente minha mãe lembrava das crianças e meu pai de regular o carro quando a gente ia viajar, depois que ela morreu ele ficou meio perdido.
- Deve ser difícil pra ele também…
- Deve ser, mas, se é ele não mostra, a gente não se bate muito sabe?
- Eu também não era muito fã da minha mãe, mas, percebi que isso era por que nós éramos completamente iguais, vai ver é esse teu problema com seu pai. Mas, qualquer dia desses, vocês vão sentar e rir das coisas.
- Você fala como se me conhecesse… – Ele riu e depois se contentou.
- Eu conheço. Não você, mas, o seu tipo.
- E que “tipo” é esse?
- Que não se apega, que manda todo mundo pra merda e que só liga pras próprias vontades, tem mil colegas, porém, nenhum amigo. Sente falta do que não tem, e pra não sentir saudade, prefere não ter as coisas, e nem pessoas, por que acha que elas sempre vão embora. E você desconta suas frustrações no mundo, e bebe o dia todo pra não se prender em uma linha de raciocínio que te leve a refletir. E quando você já ta cansado de tanta ressaca, fuma, mas, você nem gosta de cigarro, é só por que dizem que acalma. No final da noite, quando tu deita pra dormir, percebe que não é diferente de ninguém, exceto por ser mais babaca, e sente vontade de mudar, mas, seu ego te acomoda, e você se recusa a sair da sua zona de conforto. Acertei?
- Não. – Eu tinha acertado, por que ele ficou pensativo por uns cinco minutos, depois voltou a rir e fazer graça de tudo, tão Justin.
- Então, você já bebeu a jarra de água praticamente toda, já pode ir né?
- Eu já te disse que amo pipoca?
- E eu já te disse que sou egoísta? E que não gosto de você?
- Que filme é esse? – Ele sentou no sofá como se estivesse em casa.
- SAI DAQUI, gente, como você é chato e entrosado! Qual parte do colegas você não entendeu? Ainda não quero ser sua amiga. – Começou a trovejar com muita frequência, até eu tava ficando assustada, chuva sempre me deu um medinho interno.
- Você disse que eu só tenho colegas, e eu costumo a ir sempre na casa deles. Deixa eu ver o filme com você, daí se hoje for muito chato e você perceber que eu sou insuportavelmente insuportável, eu aceito a condição de colegas e não te perturbo mais, combinado?
- Combinado, mas, com uma condição.
- Qual?
- Se durante o filme você abrir a boca, encher o meu saco ou comer minha pipoca, você ta fora.
- A parte da pipoca é sacanagem.
- Ta, pode comer a pipoca, mas, silêncio, ok? E nada de ir comentar sobre isso com seus amiguinhos, só to sendo agradável com o seu medo de chuva.
- Babaca. – Ri e dei play, assistimos os dois primeiros com muito vigor, mas, na metade do terceiro já tava muito tarde, e eu derrotada morrendo de sono. Acordei com a televisão desligada, com uma coberta fofinha em cima de mim, e um bilhetinho na tela do meu celular, tipo esses lembretes que dizia: “Você dormiu, então, não vi problema em comer o resto da pipoca. Você perdeu a parte que eles dançam, fraca. Sua mãe ligou, mas, não atendi, ai ela deixou uma mensagem na secretária avisando que já tava chegando. Pra você ver o quanto eu sou legal, tranquei a porta e pulei a janela, não quero que você seja sequestrada. Boa noite, e até que não foi tão horrível assim.”. Confesso que tinha sido legal, a gente brigava mais do que ria, mas, eu me diverti. Sabia que ele ia acabar com minha pipoca, esses meninos gordos de espírito são um problema. Eu ia subir pro meu quarto, mas, o sofá tava lindo. Acordei com um beijinho da minha mãe, mas, nem abri os olhos.  O feriado tava interessante, e eu nunca pensei que um dia diria isso, mas, até que não foi tão ruim assim conhecer o Justin e todos os defeitos dele